O estado e o imaterial

1.

Por que os empresários de hoje odeiam o estado, enquanto os do passado tendiam a vê-lo como um elemento coadjuvante de suas atividades? Uma parte da classe média adere a esse ódio, e então, não raro, se põe até mesmo contra o que seriam os seus próprios interesses – se imputarmos racionalização a tal grupo – e acaba por funcionar como grande força conservadora. Afeita aos empregos mais intelectualizados e bastante presente na mídia, essa classe favorece as teses neoliberais.

Isso afeta diretamente a democracia e os pesos das eleições. A classe média tende a contaminar ideologicamente os setores populares. Os partidos de esquerda já, há tempos, começaram a ter uma maior dificuldade em mostrar aos trabalhadores o serviço estatal como serviço público merecedor de prestígio e cuidado. Mas, é claro, a ampliação da conversa ideológica não moveria o mundo se as próprias bases da relação entre nossas vidas e a vida do estado não tivessem sido alteradas materialmente.

Uma das boas narrativas sobre esse assunto é a que percorre nossa história a partir das mudanças das relações de trabalho. Os autores ligados às interpretações que falam do “capitalismo cognitivo” ou “capitalismo biocognitivo” não podem ser desconsiderados nesse caso.

Abaixo, no que segue, falo brevemente do pós-operaísmo para então levantar o panorama a respeito do estado, seus amigos inimigos na situação atual. No término, volto ao estado e seu papel na sociedade atual.

2.

O operaísmo italiano é uma corrente filosófico-política que teve grande proeminência nos anos setenta. Um grande grupo de marxistas que seguiram uma linha diferente daquela adotada pelo Partido Comunista Italiano. Nessa corrente se destacou, ainda bem jovem, o filósofo Antonio Negri.

Seus escritos o levaram a ser considerado pela polícia como um mentor intelectual das Brigadas Vermelhas. Um erro crasso.  Negri não tinha qualquer pretensão a tal coisa, muito menos tinha ligação com as Brigadas. Quando do assassinato do líder da Democracia Cristã Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, a repressão às esquerdas na Itália se tornou implacável. Negri foi acusado injustamente de todo tipo de atrocidades, e conseguiu se defender de todas. Mesmo assim, foi condenado injustamente a trinta anos de prisão por “subversão”. A pena foi reduzida a 17 anos. Depois de um tempo preso, foi eleito deputado ainda na prisão, e com isso, graças à imunidade parlamentar, conseguiu ficar um tempo livre. Por manobras políticas dos conservadores, a imunidade logo caiu e, então, ele se deslocou para a França, para não ser preso novamente.

Voltou para a Itália em 1997 e cumpriu o resto da pena. Em 2003, ficou definitivamente livre.

Com o seu aluno, o filósofo americano Michael Hardt, escreveu Império, um livro que deu novo alento ao pensamento de esquerda em boa parte do Ocidente, publicado em 2000, e com edição em português pela Record logo em seguida. Um livro fantástico recente seu, também com Hardt, é Assembly, de 2017, e que em 2018 apareceu no Brasil em português pela editora Politeia.Nesse livro ele cita uma série de autores italianos que, de alguma forma, vieram da tradição do pós-operaísmo italiano. Carlos Verceloni, Andrea Fumagalli, Maurízio Lazzarato e Christian Marazzi. Esses autores têm se dedicado à hipótese do chamado “capitalismo cognitivo” para explicar a nossa vida atual, no campo do pós-fordismo e da financeirização. Dois livros importantes desse grupo foram publicados no Brasil: A crise da economia global (2011) e O lugar das meias (2009), ambos pela Civilização Brasileira. Este último, mais antigo, veio a público em meados dos anos noventa, escrito por Christian Marazzi.

É de Marazzi que sigo a ideia aqui expressa, com a qual Negri e Hardt e outros concordam. Essa ideia pode ser resumida do seguinte modo: “a administração pública ainda se rege por uma contabilidade de tipo fordista, no sentido de que as despesas de investimento desempenham um papel absurdamente superior com relação à gestão corrente”[1]. A compreensão dessa frase é fácil. O que se está dizendo é que o estado está preso a investimentos em bens materiais, enquanto contabiliza o imaterial como despesa, quando o correto seria tomá-los como investimento. Pode-se gastar em maquinaria ou construção civil, e onerar o setor público com algo que é depreciado velozmente, enquanto se esquece da escola pública, que dota as novas gerações de modo mais poderoso.

Independentemente da verdade da tese, explicá-la pode nos levar a contar algumas coisas que poderão ajudar a responder a pergunta inicial, sobre a ideologia dos ricos e da boa parte da classe média contra o estado. A explicação nos empurra para a divisão histórica entre fordismo e pós-fordismo.

3.

O fordismo gerou uma época especial. Henry Ford criou o sistema que aplicou o taylorismo à fábrica, cujo cume e símbolo se caracterizou pela introdução da linha de montagem. Chaplin imortalizou a linha de produção como símbolo de capitalismo industrial do século XX em seu célebre filme Tempos modernos. O operário poderia sair condicionado da fábrica, tendo algumas reduções mentais impostas, todavia, a produção em favor da criação de uma sociedade de consumo de massas foi possível e, com ela, disseminou-se uma visão positiva dos salários. Os bens fabris se tornaram mais baratos dado à superprodução, e os salários tiveram de ser vistos como elemento de despesa necessário à viabilização da própria compra da produção fabril em excesso. Isso também valorizou a própria figura do trabalhador, do operário.

É claro que não foram só os salários vindos da fábrica que fizeram uma real transferência de renda, o que gerou uma fase do capitalismo em que os mais pobres realmente tiveram a algum ganho – uma fase única, aliás. O estado ajudou, criando aparatos de diminuição de despesa e de melhoria de vida para todos, o que foi feito com o bom emprego dos impostos arrecadados. Os operários fizeram os carros de Ford e tiveram salários para comprá-los, mas também economizaram à medida que o estado fez estradas proporcionando menos desgaste da máquina e ampliando a dinâmica de vida. Esse tipo de ciclo se repetiu em diversos níveis da produção de bens. A “sociedade do consumo de massas” teve sua imagem espraiada pelo mundo. Representou o ideal americano de desenvolvimento, e principalmente no pós-Guerra veio a ser sugerida pela indústria cultural americana como o que seria o correto para o mundo todo. Ser civilizado passou a ser não só ocidental, mas americano.  

Todavia, esse mundo foi abalado quando da ampliação da exploração do trabalho pelo capital, na entrada da máquina no setor fabril, fazendo com que o chão de fábrica aposentasse a tal esteira típica da linha de produção. Nesse tipo novo de produção o homem passou a ser apêndice da máquina. O número de pessoas nas fábricas começou a cair. E a produção foi se organizando não mais pelo estoque, mas pelo just in time. O ideal do “estoque zero” se impôs.

 O fordismo pedia a organização da produção de modo a acertar uma harmonia que, se na prática nunca se realizasse, em termos ideais era bem louvada: a oferta induz a demanda. O pós-fordismo inverteu a seta, e passou a considerar a demanda como a mandatária da relação. Assim, o comprador ganhou individualidade. Tudo se fez no sentido de atender o seu gosto de indivíduo, ou melhor, de átomo social. E se a garantia de um salário na própria fábrica já não era mais a base para a garantia do consumo, os mecanismos de crédito se deslocaram do âmbito da produção para o âmbito do consumo. A financeirização também entrou por essa porta. Os mecanismos de crédito bancário passaram a visar o “crédito ao consumidor”. Há inúmeras estatísticas mostrando como que a própria Ford nunca mais ganhou com o carro vendido, e sim com o carro financiado por ela mesma ao consumidor. O chamado “crédito consignado” surgiu na TV e nas propagandas como coisa corriqueira.

Essas alterações atingiram em cheio a sociedade e o estado.

No âmbito da sociedade, deu-se o que Antonio Negri e Michael Hard anunciaram como a transformação de toda a sociedade em uma grande fábrica. A contrapartida da automação da fábrica se fez sentir na digitalização da sociedade, e ambos os processos foram casados por um padre que é o algoritmo. Sendo assim, o capitalismo passou a ser biocapitalismo. Todo o tempo de vida se dispõe no trabalho (que, inclusive, se confunde e se funde no lazer), e é claro que, nesse sentido, o setor de serviços se amplia, e com a digitalização esse processo ganhou nova forma, velocidade, e vem se tornando totalizador. [2]

Quanto ao estado, ele foi sendo visto de outra forma: foi de coadjuvante para empecilho. Pois o sistema just in time veio reforçar a ideia do salário como custo, que deve ser comprimido ao máximo. O chamado Estado social perdeu sua função de redistribuidor de renda, e sua imagem aos olhos do capitalista pós-fordista logo se tornou em um fator problemático a ser eliminado. O estado só estaria ali para encarecer os salários, os custos da produção. Afinal, a produção só estaria envolvida, nesse novo regime, efetivamente com custos. Uma sociedade de créditos individuais que não induz mais demanda visa a uma atomização social e cabe então aos bancos e financiadoras dar apoio a cada para que ele possa consumir. Que cada um ganhe sua cota de dívidas. O próprio estado deve sair da jogada para a entrada da vida regrada pelo mercado.

Christian Marazzi lembra o quanto cresceram os serviços de crédito ao consumidor na forma de leasing, pequeno crédito, compras a prestação e cartões bancários e de lojas de todos os tipos. Tudo é feito para que o salário seja antecipado segundo uma base de demanda futura. “O crédito ao consumo desempenha o papel do Estado social no regime fordista, no sentido de que assegura a efetividade da demanda, ou seja, que ela seja monetária, dando-lhe condições de adquirir a totalidade da produção”.[3] Por isso, continua ele, “o papel tradicional do Estado social, de garantidor em última instância da demanda efetiva, tende a se tornar privado: o sistema bancário é mais bem aparelhado para assegurar uma demanda calcada no consumidor efetivo.”[4] Se este consumidor não possui ainda qualquer renda para ser consumidor, ele logo recebe do banco, de forma direta ou indireta, o quanto lhe falta para consumir. Sai a importância do estado na vida do trabalhador-consumidor e nesse espaço aberto entra o mercado crédito. A febre consumista do fordismo introduz a febre do trabalho. Todos trabalham mais para pagar suas dívidas. A chamada sociedade de consumo, a ideia do consumismo, vai se tornando algo menos presente na imagem que temos hoje da vida. Os mais jovens, a “geração Z”, nem mais entende esse termo.

4.

Aqui, podemos até introduzir um parêntese, para lembrar da mudança dos comerciais de TV o de mídia em geral, como foram estudados pelo sociólogo francês Gilles Lipovetskty. Foi ele quem escreveu que à sociedade fordista corresponderia a ideia do consumo de inveja: todo mundo consome tudo e mostra como status ao outro. À sociedade pós-fordista as propagandas são individualizadas, voltas para gostos pessoais e íntimos, que não precisariam ser ostentadas a outros. A ostentação torna-se cada vez mais ridícula, e a inveja social diminui. Na verdade, há a troca da ostentação pela sensação. O narcisismo ganha um corpo presente nessa nossa nova sociedade.[5]

Deveríamos dizer, até, que o fenômeno do identitarismo está ligado a tal mudança para o pós-fordismo. O identitarismo é o movimento no qual os grupos minoritários gostariam de se firmar, sendo que na base teríamos a necessidade de diversidade social. Todavia, sabemos bem, a última coisa que o identitarismo defende é a diversidade. Ele é o cultivo da identidade, e isso em termos individualizados e, digamos, neoliberais. O identitário ama o igual, o idêntico, e de preferência ama a si mesmo.[6] A atividade masturbatória passa a ser cantada em verso e prosa. Vira norma e motivo de orgulho ter um vibrador e mostrá-lo em tempos de pandemia/sindemia! O amor entre garotas então se amplia antes como prática identitária do que propriamente como prática lésbica. Muitas garotas da Geração Z não sabem de fato se são ou serão lésbicas. Pessoa gosta de pessoa – um lema saudável. Pelo identitarismo as coisas tomaram um rumo fascista: pessoa gosta de pessoa igual. O identitarismo na esquerda ganhou a mesma face do fascismo na direita, e passou a se tão censor e cancelador quanto este último.

5.

De tudo que se disse até aqui, é fácil agora perceber como o pós-fordismo abriu terreno para uma mudança na função do estado. Aliás, segundo Marazzi, uma mudança que não necessariamente deveria ser vista como ruim. Pois se o mercado substitui o estado na abertura das pessoas para o consumo, ele pode ainda ter um papel socializador. Nesse caso, o correto seria pensar sobre como que vivemos em uma economia que está mais para o software do que para o hardware, um tempo em que importa menos as coisas materiais que as coisas imateriais. Não haveria razão de, nesse caso, evitar o estado como garantidor de podermos continuar a trabalhar em rede, na troca de informações, levando em consideração antes a produção espiritual que a material.

Se é verdade que o mundo atual, do pós-fordismo, é o mundo do biocapitalismo e do capitalismo cognitivo, que o valor e as próprias forças produtivas, hoje, é ampliado pela presença do trabalho imaterial e dos resultados também imateriais, então o estado pode ser uma salvaguarda contra as tentativas de privatização de seções das redes comunicacionais que permeiam toda a sociedade. A cada investida do capital no sentido da expropriação do comum, em especial o comum consubstanciado no saber, o estado poderia responder com legislação e legitimidade a favor da manutenção da conversação universal e em rede.

Isso cumpriria então uma função ética e uma função propriamente já cognitiva. Seria um dever ético não deixar a expropriação ocorrer. Seria um dever cognitivo não deixar a expropriação e o cerceamento ocorrer, pois o saber só é saber se livre de cerceamentos. Ele é a linguagem enquanto o que tece teias e que assim fazendo cresce e alimenta as forças produtivas.

Essa noção de estado talvez pudesse conquistar alguns liberais que, em geral, dizem dar importância à educação. Poderia inclusive seduzir os empresários que falam em desenvolvimento do “capital humano”. Mas, se pensarmos bem, é difícil que os liberais se comportem como liberais hoje em dia. É difícil que os empresários pensem em empreendimentos produtivos hoje em dia.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo

19/03/2021


[1] Marazzi, C. O lugar das meias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 142.

[2] Hardt, M e Negri, A. Assembly. São Paulo: Politéia, 2018, caps. 7 e 10.

[3] Marazzi, C., pp. 139-40.

[4] Idem ibidem, p. 140.

[5]. Lipovetskty, G. A felicidade paradoxal. São Paulo: Cia. Das Letras, 2006, p. 43.

[6] Hardt, M e Negri, A. Bem estar comum. Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 206.