De novo a história recente das peripécias de Lula e do PT

Já contei essa história, que vivi, mil vezes no mínimo. Mas como as mulheres no Brasil são parideiras e produzem nascimentos todos os dias, tenho de contar de novo. Todo ano chega gente nova que não viveu e não vai estudar de maneira compenetrada. Tenho de falar com estes que chegam no nosso canal todos os dias.

Mas, me perdoem, desta vez vai tudo bem resumido. Mas, garanto, é uma narrativa já testada com públicos diferentes, de orientação política diversa, e consegui um bom consenso.

Essa história começa com o “mensalão do PT”. Zé Dirceu e boa parte dos petistas nunca viram a democracia como alguma coisa grandiosa. Sempre acreditaram que há gente que não poderia estar como deputado no Congresso. Então, para que Lula pudesse não ter problemas com o Congresso, Zé Dirceu expandiu um modelo de corrupção que já o PSDB fazia, com Marcos Valério e com o senador Azeredo, em Minas. No frigir dos ovos: comprava-se com dinheiro público parte dos deputados do Congresso, de modo que Lula pudesse aprovar os projetos que queria. Ninguém saia triste nisso. Nem mesmo a oposição. Os fins justificavam os meios, pensava Dirceu. Duvido que tenha mudado.

Um belo dia, Roberto Jefferson (desafeto de Dirceu desde os tempos do Impeachment de Collor) apareceu na sala de Lula, no Planalto. Foi até lá como chefe do PTB, um partido que estava na crista da onda da Globo, pois o JN havia mostrado gente desse grupo político pegando dinheiro vivo, em corrupção lascada nos Correios. Jefferson resolveu dar o troco, pois havia falado com Zé Dirceu no sentido de ser protegido da exposição, mas o então Chefe da Casa Civil não lhe deu atenção devida. Na sala do Presidente, Jefferson contou do “mensalão”. Ele próprio testemunhou depois que viu que Lula não sabia. Depois contou para o Ciro, que, segundo ele, “coçou a barba” e disse que tudo aquilo era “muito dinheiro”, e se fez de cético. Jefferson esperou a proteção do Planalto, que não venho, e ele dedou todo o esquema. Lula foi para a TV e concordou que havia o “mensalão” e prometeu “cortar na carne” do partido, depondo os responsáveis por todo o esquema. A coisa evoluiu para pior e quase que sai um Impeachment de Lula. Só não saiu porque FHC, na oposição, segurou todo mundo. Não de favor para o velho amigo Lula, mas porque o PSDB estava envolvido num rabicho inicial da coisa toda.

Mais tarde, quando o Brasil vendeu comodities e subiu o salário mínimo, e depois ampliou o Bolsa Família, Lula começou a dizer que o “mensalão” não havia existido. Os ventos lhe eram favoráveis na opinião pública, sem contar na opinião dos banqueiros, felizes com a manutenção do neoliberalismo do PT. Sentindo-se forte, Lula queria reconstruir a história, sair limpo perante o mundo e fazer do PT um partido de anjos. Não teria havido mensalão, e para tal era necessário provar que o STF, com o ministro Barbosa à frente, eram pessoas erradas. O PT colocou em ação o que sempre soube fazer bem: a prática estalinista de reconstrução da história. Com Luiz Nassif chefiando rede de blogs pagos (de Sakamoto a Paulo Henrique Amorim passando pelo que hoje é o canal 247 e outros desclassificados do jornalismo marrom) com dinheiro público, veio a avalanche de fake news em forma de jornalismo sério. Uma boa parte dos eleitores do resolveu perdoar o partido e Lula, e diante da ameaça de Serra e depois de Aécio “fechar o país para balanço”, nossa gente deu dois mandatos para o PT além dos de Lula.

Nos governos Dilma as denúncias de corrupção quase que diárias continuaram, coisa que já estava acontecendo no governo de Lula. Não havia um dia que não caía um ministro. O problema não era mais o mensalão, mas as corrupções em diversas instâncias do governo, em especial na Petrobrás. Ficou difícil para os meios de comunicação se calarem. Casos de queda de ministro após denúncia é sempre boa notícia para a classe média, na hora do noticiário político, uma vez que esse grupo só entende como política o “roubar e o não roubar”. A isso se somou a inépcia de Dilma no segundo mandato, mudando de rumo a política econômica várias vezes. E se já não bastasse isso, Dilma e o PT ouviram Temer e o PMDB nos movimentos de 2013, e ao invés de acolher a oposição de rua, lidou com os jovens como se eles fossem direita. Não eram. Quando o PT precisou dessa gente para ficar contra o Impeachment, já os havia perdido. Lula ficou perdido nesse episódio, não soube atuar.

Os intelectuais do PT, com Marilena Chauí à frente, tacharam os jovens como sendo alienados e de direita. Diferentemente, Suplicy visitou casas de jovens para falar com os pais, elogiando os meninos. Mas o desfecho principal foi no Rio de Janeiro, nos protestos contra a Copa. E o PT endossou a repressão do governo de Cabral aos jovens. Foi o grande passo errado do PT, que até hoje não conseguiu admitir que errou.

As obras da Copa, todas envolvidas com empreiteiras corruptas e corruptoras, daria muito dinheiro a todos os partidos que haviam se associado à “redenção do Rio de Janeiro”. Os governantes brasileiros haviam derrotado até Obama, na base da corrupção, para sediar aqui a Copa. A sanha da direita era a mesma do PT nesse quesito. O olavete Luís Felipe Pondé, avesso a esportes e dono de barriga patógena, escreveu na época contra os manifestantes do “Não vai ter Copa”, a favor do PT! Havia se formado um arco conservador incrível, e disso resultou uma lei Antiterror feita pelo PT, que serviu à repressão do governo federal e governos estaduais. Enfim, saiu a Copa. Só a classe média rica conseguiu ver os jogos nos estádios, o povo pobre viu a Copa como se ela estivesse no exterior. E veio o 7×1. Lula não se deu conta que estava tudo dando errado. Não se tocou com o fato de que Ronaldinho e outros cobrassem mais de cem mil reais do governo para falar uma frase no twitter sobre a Copa. Dilma pagou.

O episódio do Impeachment é bem conhecido. A esquerda o trata como “golpe”, mas o conceito deve ser o de Impeachment. Falei disso em meu livro A República Brasileira: de Deodoro a Bolsonaro, não voltarei ao assunto. Quem quiser entender as disputas historiográficas pode recorrer ao livro, vendido na Amazon.

Quanto a Lula, ele se desguardou. Não roubou, mas foi completamente negligente em deixar roubar. Pois recompôs sua base política no Congresso, para servir a Dilma, a partir de Temer, conhecido como chefe de quadrilha. Lula passou a confiar demais na sua biografia reconstruída, nos prêmios internacionais e coisas do tipo. E ficou com brechas abertas para ser pego. A frequência ao sítio de Atibaia e o Triplex de Guarujá foram episódios que só alguém que se imagina rei, e não um operário-presidente, poderia ter deixado como rabicho. Nas mãos de um juiz politiqueiro chamado Sérgio Moro, de uma Rede Globo desejosa de criar novela em forma de reality show melhor que o BBB, e de uma classe média espremida crescentemente entre ricos mais ricos e pobres com mais direitos, as denúncias de corrupção começaram a servir para atingir Lula. Este, por sua vez, continuou acreditando que tudo cairia nas costas do PT, e que ele ficaria a salvo.

Lula começou então um jogo perigoso contra Moro e a opinião pública formada pela classe média. Passou a publicar frases do tipo: “se me deixam livre, ganho as eleições, se me prendem, viro herói nacional”. E insistiu nisso. A Lava Jato cresceu e Moro, influenciado pela esposa, passou a sonhar em prender o inimigo número um do Brasil, segundo o Power Point fantástico de Dallagnol, apresentado na TV de forma espetaculosa. Lula foi preso e não se tornou herói nacional. Na prisão, inventou histórias de que os Estados Unidos o haviam prendido. Mentiras. Depois, fez o jogo de cena conhecido, do operário que há 60 anos passados havia dormido com baratas. Saiu da prisão e ficou meio que moribundo durante um tempo. Em março de 2021 viu então o ministro do STF, Fachin, lhe dar uma segunda chance, numa decisão tão política quanto foi a decisão política que o levou para a cadeia. Juízes no Brasil e no resto do mundo são políticos! Moro havia feito tudo errado do ponto de vista jurídico, e Fachin achou por bem colocar Lula de novo na política, com medo da perpetuação de Bolsonaro, agora visto, não sem razão, como o homem que pode nos matar a todos.

Caso Lula não seja mordido pelo vírus do cinismo, e se empenhar no Impeachment agora, que é única coisa que mete medo no Bolsonaro, ele ajudará o Brasil. Bolsonaro pode tomar medidas que salvem a populaçao. Caso só pense em eleição, Lula pode de novo errar. Como errou ao escolher Dilma e como errou ao não negociar em 2013 com os jovens, deixando Dilma sozinha. Podem ler sobre isso tudo em 2013, livro da professora Camila Jourdan.

O presidencialismo brasileiro exige que o Presidente seja um homem como Obama, sem rabo preso e capaz de manter isso durante oito anos e depois. Obama manteve oitos escalões no governo sem corrupção. E na política econômica salvou os Estados Unidos de uma catástrofe. Não o fez contra o neoliberalismo, mas entregou os Estados Unidos com chances boas para Trump fazer um bom governo em um país que voltava ser próspero, ainda que com divisão entre ricos e pobres acentuada. Trump estragou tudo.

No Brasil, Lula entrou para o Planalto sem rabo preso e adquiriu de cara o rabo do mensalão, doado pelo amigo Dirceu. Ficou fraco. Bolsonaro já tinha rabo não só preso, mas rabo mesmo, animalesco, e entrou macho e logo depois colocou a máscara no bumbum, como seu filho mandou. Mas nem com máscara conseguiu escapar do Centrão, que o chantageia com o Impeachment (por baixo dos panos). Não tivemos ainda o nosso Obama, e não o temos em vista horizonte. O melhor é, então, começarmos a lutar pela democracia participativa, criando canais para nós mesmos governamos mais, acoplando esse tipo de democracia à democracia representativa. Os americanos poderiam nos ensinar isso. Eles possuem uma democracia com mais canais. Claro, a história deles foi diferente da nossa, mas há coisas que ainda podemos fazer para melhorarmos nossa democracia. Uma delas seria não posar como gado gritando “Ciro 2022” ou Haddad “2022” ou “Lula 2022” em todo canto, mas entrando nos grupos de família da Internet e, com o instrumental do nosso canal no Youtube, atuar colocando problemas brasileiros que afligem cada família. Isso ajuda a construção de uma nova politização para resolver problemas de agora. Nada de conversa sobre candidatos.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo 14/03/2021

2 comentários

  1. Não votei no Lula novamente em 2006, ou na Dilma em 2010, por ter perdoado o PT, isso é uma presunção sua. Para mim esses crimes, que, no Português comum, chamam de “corrupção” (a parte pelo todo, a espécie pelo gênero, já que esse é apenas o nome um dos “crimes contra a administração pública”), são e sempre foram normais de existir, sempre existiram, e nunca diferenciaram nenhum governo de outro. Eu cresci vendo corrupção nos jornais, em todos os governos, Sarney, Collor, Itamar, FHC, e a do governo Lula era apenas mais uma, nem maior nem
    menor, apenas mais uma corrupção. Eu não temia Serra nem Aécio, e para mim um governo deles teria corrupção como qualquer outro. Sempre estive me lixando para o Lula, mas me lixando muito mais para essa questão de corrupção, pois sempre achei que os valores levados são irrisórios e que não são a causa dos problemas brasileiros. E também porque odeio o lugar-comum, acho brega e vazio, para mim não passa de moralismo barato, igualzinho o religioso.

  2. Não concordo que a decisão do Fachin seja tão política quando a do Moro. Se o senhor acha que toda a decisão judicial no Brasil é política, e talvez sejam mesmo, então esse critério não diferencia nenhuma decisão de outra, a do juizinho de comarca da do STF, restando apenas falar
    do grau de politicidade das decisões. E acho que a decisão do Fachin foi bem menos política do que fora a do Moro. Uma decisão judicial e sua fundamentação não são livres como as de um impeachment, elas estão vinculadas aos elementos trazidos no processo, e a do Moro era
    muito problemática, quase que 100% desvinculada desses elementos. A decisão do Fachin pode ter sido política pela questão temporal, pelo momento em que foi dada. Uma decisão judicial gera reflexos em diversas esferas além daquela a que pertence a Justiça em questão, no caso,
    a esfera criminal. Os reflexos de uma decisão errada têm que ser desfeitos, assim como têm que ser refeitos quando essa decisão e confirmada novamente. Os reflexos da decisão do Moro não poderão durar para sempre.
    Meu pai achava que o Lula deveria ser condenado na causa do apartamento mesmo que fosse inocente, para pagar por outros crimes não descobertos. Eu disse a ele que não concordava e que achava ele um babaca, porque isso abriria precedentes para que o mesmo acontecesse
    com qualquer um de nós. Não quero viver em um país em que as pessoas tenham que parecer honestas, mas em um em que elas apenas tenham que ser honestas. Quero um país onde o presidente possa sim visitar um apê ou um sítio, onde ele possa sim deixar rabichos, e onde não
    exista Moros. Às vezes acho o senhor um caretão bunda-mole igual meu pai.

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