O misterioso Bolsonaro que só o PT não conhece

A via chilena para o neoliberalismo guardou uma característica especial. O regime de liberalização econômica, inaugurado no sentido de tornar o mercado o organizador da sociedade, foi introduzido por um golpe militar e, na sequência, o Chile viveu longo período de suspensão das liberdades democráticas. Não foi por essa via que os países do centro do capitalismo adotaram o neoliberalismo. Reagan e Thatcher levaram adiante o neoliberalismo cavalgando duas grandes e tradicionais democracias. De modo semelhante, também o Brasil seguiu a via da implantação do neoliberalismo em associação à democracia, e não a via chilena.

A oposição de esquerda no Brasil jamais conseguiu entender isso. Ou talvez até possa entender, mas não consegue admitir, e nesse caso por razões, talvez, pela própria confusão estabelecida no interior do PT quanto à adoção do neoliberalismo mitigado ou neoliberalismo desenvolvimentista por Lula.

Nossa esquerda institucional ou critica o neoliberalismo (ou criticava, até Lula aderir a ele), mas não consegue vê-lo como um regime econômico e político que se fez valer no Brasil pelo voto, em harmonia com a democracia representativa (não, é claro, com a democracia participativa). Fernando Collor, FHC, Lula, Dilma e Bolsonaro foram presidentes eleitos legitimamente. Os dois primeiros foram francamente neoliberais. O governo Lula fez um neoliberalismo mitigado. Dilma tropeçou em idas e vindas na economia e criou um caos. Temer e Bolsonaro deram sequência ao neoliberalismo da era FHC.

O modo como o PT trata Bolsonaro é associá-lo à Ditadura Militar de 64 e, não raro, ao Chile de Pinochet. Fazendo assim, não entendendo o tipo de neoliberalismo do governo Bolsonaro, acaba míope diante de sua proposta de ultraliberalismo, algo até então não posto em nossa tabuleiro político. Nem Collor e nem FHC foram adeptos do ultraliberalismo de Bolsonaro. Collor e FHC, cada um a seu modo, liberalizaram a economia, mas não fizeram a sociedade refém de uma proposta de incentivo às liberdades individuais capaz de minar a própria organização da vida civilizada. Diferentemente, Bolsonaro propõe que cada cidadão possa ter a sua arma e que cada cidadão possa desobedecer regras mínimas de convivência e resguardo, e isso em nome na liberdade. Sua luta contra o lockdown é uma luta de caráter libertário ou, melhor dizendo, uma espécie de anarcocapitalismo. O PT não entende isso.

Para o petista médio, em geral, a história do Brasil se resume à história da Ditatura Militar. O professor petista, não raro, ensina que a República de Deodoro começou com um golpe militar, e assim o faz apenas como preâmbulo para falar de 1964. Depois, ensina que Sarney serviu à Ditadura Militar, para então dizer que a Nova República (1985) foi um regime caudatário de 1964. Verdades para contar mentiras.

O PT precisa reduzir Bolsonaro a ditador. Assim fazendo, não tem como lidar com os ataques de Daniel Silveira, que são feitos em nome da liberdade de expressão. Não consegue lidar com Bolsonaro quando este diz que jamais deixaria o Exército segurar alguém trancado em casa para não ir trabalhar. Nem sabe opinar sobre a censura do Facebook a Trump e a Bolsonaro. Toda a história que o petista conhece – Fernando Haddad à frente – se resume à história da Ditadura Militar. O raciocínio do petista médio é linear e simplório: uma vez que Bolsonaro foi militar, então ele é um governante que não defende a liberdade, e sim o modo autoritário de governar. Todo adversário do PT, segundo a narrativa petista, nunca ganha uma eleição, sempre é algo mais ou menos roubado. Assim, Collor teria sido eleito por conta de manipulação de debate na TV Globo. FHC teria se tornado presidente por causa de um estelionato eleitoral levado adiante pelo Plano Real. Bolsonaro teria tomado posse no Planaltao por causa de fake news disparadas em massa. Até a teoria da facada fake inventaram – como se hoje em dia pudéssemos montar um teatro mentiroso daquele tamanho. O PT nunca perde de fato as eleições! E nunca compete com democratas.

Para gente como Haddad (Safatle e Cia) e outros petistas não existe uma luta verdadeira contra posições diversas, mas apenas a guerra desesperada contra os inimigos da democracia, ou seja, todo e qualquer adversário do PT. Como Bolsonaro sempre foi vitorioso na democracia e como ele baseia sua retórica na liberdade, o PT diz uma coisa e a população vê outra. O PT não percebe que, para a população, o que Bolsonaro fala faz sentido, e que de fato Bolsonaro está em defesa de um tipo de liberdade. Para a população é o Dória que é autoritário, que faz lockdown, ou qualquer outro governador que atua nesse sentido. Lidando com percepções erradas e conceitos inadequados, o PT passa para a população um discurso que aparece como um tanto esquizofrênico, que insiste no Bolsonaro ditador, coisa com a qual a população não concorda. E não adianta avisar o petista a respeito de que essa sua narrativa não ajuda em nada, ele não muda!

É claro que uma sociedade que venha a adotar o anarcocapitalismo de Bolsonaro pode cair em um regime que favorece autoritarismos. Mas tais autoritarismos virão pela milícia e pelas Igrejas Evangélicas, e com a aquiescência do capital financeiro. Não será obra da mão de Bolsonaro. E tal regime não irá configurar uma ditadura, mas uma democracia representativa não muito diferente da que já temos, apenas mais selvagem.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo 12/03/2021