Eu errei sobre Bolsonaro

Em dois artigos para a Folha de S. Paulo, O grande ataque do Bolsovírus (21/06/2020) e A doença misteriosa (04/02/2021), levantei a tese de que Bolsonaro é o Bolsovírus. Ele realizaria o desejo da Covid de fazer o coronavírus se multiplicar e daria em troca, para Bolsonaro, a chance de permanecer no poder, ajudando nas desculpas pelos seus erros na economia. O modo como esse pacto que gerou o Bolsovírus se realizou foi a opção de Bolsonaro pela teoria da imunidade de rebanho: deixar a doença se propagar de modo a conseguir com isso imunizar, na verdade, o capitalismo brasileiro. Nosso capitalismo não teria que conhecer dias parados. Como o vírus, o desejo do capital é se reproduzir, crescer e acumular.

Essa opção pela teoria da imunidade de rebanho foi uma escolha cientificamente falha e eticamente perversa. Os homens de ciência mostraram que a imunidade de rebanho não seria atingida. Os homens da filosofia mostraram que qualquer morte, uma que fosse, por essa escolha, seria uma falta ética imperdoável. O “efeito colateral” dessa opção estamos vendo agora: mais de 250 mil mortos.

Para realizar esse projeto monstruoso Bolsonaro precisava de uma ideologia. Olavo de Carvalho e Luís Felipe Pondé (e outros da mesma laia) arrumaram uma: o negacionismo. Com palavras que oscilaram entre a grosseria e a aparência de sutileza, essas pessoas foram tentando reduzir a Covid ao não existente de fato (Olavo) ou simplesmente algo contra o qual nada se poderia fazer (Pondé). Denunciei isso. Mas não fui ouvido.

Muitos não me deram atenção, pois estavam presos ao velho conceito: doença é natural, e fim de papo! Mesmo eu explicando a Covid pela biopolítica, na filosofia, e pela noção nova de sindemia, na medicina, não adiantou. A doença é política, ela é biopolítica – eu insisti. Ela só poderia ser combatida com auxílio emergencial de no mínimo 800 reais, lockdown rigoroso e reorganização das urbana acelerada. Feito isso, teríamos derrubado a doença em 2020. Não fizemos. Perdemos a guerra da comunicação para Bolsonaro. Ganhou a versão de que a doença era algo natural e que tudo que podíamos fazer era sermos neoliberais: cada um que se virasse com a doença, como cada um, na uberização, se vira com o desemprego.

Recentemente, Eliane Brum escreveu em El País um longo artigo chamado A covid está sob controle de Bolsonaro. Ela nada diz senão o que eu vinha dizendo. Apareceu alguém para, com outras palavras, falar o que eu estava falando. Mas justamente agora, que alguém concordou comigo, tenho de confessar que eu estava errado. Não de todo errado, mas faltava uma peça na minha engrenagem descritiva de Bolsonaro.

Bolsonaro não tinha um projeto negacionista exclusivamente como ideologia. Ele tinha um projeto negacionista como estratégia de corrupção. Ele estava com dívida de campanha, exatamente para com um empresário da indústria farmacêutica. A campanha de Bolsonaro havia sido financiada, entre tantos outros, também e substancialmente, pela Apsen Farmacêutica. Trata-se da maior indústria do mundo de produção de hidroxocloroquina. Bolsonaro serviu de garoto propaganda para tal indústria. Serviu de agente estatal em favor da adoção da cloroquina. Mobilizou 4 ministérios para tal. Tudo para criar demanda. E colocou o Exército para fazer a droga que, enfim, não era só inútil, mas nociva. Ela matou pacientes de Covid. Todo esse empenho tinha só um objetivo: conseguir lucro para a Apsen. E isso porque o BNDES, no governo Bolsonaro, soltou para tal indústria nada menos que 153 milhões de reais. Nunca a Apsen havia visto tanto dinheiro. (Folha, 04/03/2021)

Desse modo, a ideologia de Bolsonaro não era um projeto de proteção geral da continuidade do capitalismo, era também um projeto mesquinho de pagar dívida de campanha. Um crime hediondo, sim, pois nunca ninguém no Brasil, que eu saiba, envenenou e matou tanta gente por motivos políticos.

A crueldade desse projeto me faz lembrar as crianças de Hitler, sendo mortas à noite com balinhas doces, quando o Reich já estava condenado. Nós todos fomos essas crianças, ainda somos. No momento em que escrevo, Bolsonaro segue atuante. Nesse mesmo momento, os políticos todos, inclusive os da esquerda, fingem que nada pede o Impeachment, e esperam as eleições. Também a idolatria da democracia representativa é uma atitude, nesse contexto, que leva a uma falta moral absurda.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo 04/03/2021

Foto de capa: Renata Spallicci. musa fitness que é diretora proprietária da Apsen Farmacêutica. Ela e seu pai (o apoiador de Bolsonaro) herdaram a Apsen dos avós.  [a vacina iria nos transformar em jacarés, a cloroquina é que produziu essa coisa da foto?]