A imbecilização na falta de Marx

Antes do fim da União Soviética o marxismo já havia caído em desprestígio. É que muitos marxistas, mesmo os bons, haviam repetido jargões demais, lugares comuns, fórmulas que desobrigavam o pensamento de se exercer criticamente. O marxismo ficou tão chato quanto o feminismo atual da militante acadêmica – exceto Judith Butler -, que após amaldiçoar a “sociedade capitalista, machista e patriarcal” não tem mais nada a dizer. 

Em 2005 eu traduzi para a Editora Martins Fontes o livro de Richard Rorty Pragmatismo e política. Em um dos ensaios do livro, escrito logo após o fim do comunismo do Leste Europeu, Rorty comentava então o fracasso do marxismo leninismo, e se perguntava no que estariam os jovens de esquerda acreditando, no futuro, passado vinte anos. Eis que estamos trinta anos distantes. E boa parte dos jovens acabou abandonando o nome de Lênin, mas não o leninismo prático, a ideia de vanguarda (Boulos à frente!). No entanto, ao não terem tido mais nenhum contato com o marxismo como matéria de estudos, tanto a Geração Z quanto os que estão chegando próximo aos quarenta anos agora, formam um grupo cujas falas soam aos ouvidos de pessoas com a minha formação como os reis da ingenuidade. 

Trata-se de ingenuidade, subserviência ideológica acrítica, reiteração do neoliberalismo pouco consciente e, não raro, estupidez. Luciano Huck entrevistando um professora americana (Estadão 27/02/21), a quem ele atribui fama é como Gabriela Prioli ensinando política para Anitta (em vídeos no youtube). Soltam gritinhos em favor do capitalismo e de quanto eles são pertencentes à “galera da democracia liberal”. Muitos estudantes hoje, nas faculdades, não passam disso: comportam-se como esses dois que, enfim, funcionam como pessoas da sétima série. 

Essas pessoas possuem, sempre, um momento de reconhecimento da pobreza. “Há distância sócio-econômica no Brasil” – constatam (sério!). E procuram então uma “fórmula” instantânea para resolver isso. Luciano Huck chega a elaborar esse tipo de pergunta idiota na sua entrevista à professora americana. Prioli pensa igual. A fórmula, é claro, tem que ser dentro do capitalismo. Não se pode sair dele, porque, segundo eles, o capitalismo foi o regime que mais tirou as pessoas da pobreza. Eis aí a falta de Marx. Comparar a pobreza fora do capitalismo e dentro do capitalismo não faz sentido. Pois o capitalismo gerou uma nova vida, novos ricos e novos pobres. E a pobreza gerada no capitalismo coloca muita gente (muita gente mesmo!), inclusive nos países ricos, morando em lixões. 

Figuras como Luciano Huck e Gabriela Prioli, quando eu era jovem, jamais teriam espaço em jornais como O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Hoje, até mesmo intelectuais que dão diretrizes aos partidos estão nesses jornais e, se não são fraquinhos como os dois citados, também não possuem nenhum contato com Marx. E por conta disso, idealizam a democracia e restringem suas análises ao plano de disputas políticas, ou melhor, disputas eleitorais. São incapazes de notar a força do capital, o seu projeto de funcionar como um “sujeito autômato”, e que nos coloca em uma espécie de mecanismo. O sujeito autônomo, que seríamos nós, perde para o sujeito autômato, que é o capital. Querer trabalhar com a política sem considerar seriamente isso é atribuir ao homens capacidade de decisão que eles imaginam que possuem, mas que não possuem de fato.

Gente como Luciano Huck, Gabriela Prioli, Leandro Karnal, Luís Felipe Pondé e coisas desse tipo, tendem a acreditar que a política se move por ela mesma. Gente como Jessé de Souza e os leitores que acreditam nele tendem a achar que os ricos sentam numa mesa (dentro da Rede Globo?) e traçam planos maldosos para dominar o mundo, e que isso se realiza. Em todos os casos, as ideias básicas de Marx são o que desapareceu da cultura. Assim, vemos que não entendem o que significa capitalismo. Não entendem o “ismo”. Não lendo Marx, não podem saber que o capital é valor em movimento que tende a acumular, e se não acumula então o próprio capitalismo deixa de existir. Esse mecanismo nos carrega a todos. Nossa capacidade de mexer nele para alterações decisivas é alguma coisa que podemos acreditar? Bem menos do que já acreditamos, no passado. 

Todos essas figuras que citei desconsideram as relações sociais que essa automação do capital gerou. Nesse grupo de pessoas, uns imaginam que os ricos podem mudar o capitalismo. Outros, ainda nesse grupo, sabendo que são ricos, acreditam que basta conhecer se há uma fórmula para melhorar o capitalismo. Batem nas portas de professores americanos da modinha (professores sustentados internacional por bancos e grandes empresas!) para que eles lhes dê a fórmula de resolver tudo, sem arranhar o capitalismo. 

Está no hora de voltarmos a ler O Capital. Nisso, os cursos de David Harvey podem ajudar muito. Está na hora de lermos Toni Negri e os economistas do pós-operaísmo italiano, nesse caso, é fundamental o livro Assembly e o livro A crise da economia global, em especial o artigo interno de Carlos Vercelone. Se nossa juventude não puder se reeducar urgentemente, vamos ter que conviver com os citados acima ainda mais tempo. Eles representam a parte do Brasil que se emburreceu, e que acabou pondo no Planalto o tal de Jair Bolsonaro, o tosco.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo

4 comentários

  1. Lucidez e generosidade é que o texto nos dá. Gratidão sempre professor 🤓

  2. Segundo o canal Orientação Marxista,no Youtube, o livro de David Harvey contem uma incompreensão total do Capítulo 1 do livro 1 de Marx. Há que se ter cuidado com essa recomendação. Esse canal é o melhor canal do Youtube para se aprofundar na teoria marxista e Gustavo Machado é um intelectual de primeira.

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