Laerte não pegou a Covid

“A Covid-19 não é só uma doença. Ela é uma doença que tem uma dimensão política muito clara, que está ligada a um problema político muito claro que é o avanço do fascismo no Brasil.” – Laerte

Laerte não pegou a Covid-19 como poderia ter feito. Isto é, ele não a compreendeu. Laerte continua ainda no nível que eu chamo de Nível Átila Iamarino.

Trata-se do nível daqueles que não querem levar a sério argumentos do tipo dos que coloquei na Folha de S. Paulo em 2020 e agora em 2021 (O ataque do Grande Bolsovírus 21/06/20 e A doença misteriosa 04/02/21). São pessoas que consideram a doença como algo natural e com alguns adendos sócio-políticos, uma vez que o governo não ajuda muito na contenção etc. Essa visão, eu já disse, não ajuda tanto quanto pode parecer à primeira vista . Ela parece ser melhor que a visão corrente entre os médicos, de que doença é algo deles e só deles, e que se resolve na clínica, no hospital ou com vacinas. Mas a visão Átila-Laerte, segundo o que venho defendendo, não é um bom instrumento para dar combate ao mal pela raiz.

A narrativa que tenho construído sobre a Covid é uma que eu esperava que ao menos o Laerte pegasse. Mas nem ele! O senso comum é forte, e diz que doença é doença, algo provocado por um bicho da natureza dentro da gente.

Minha narrativa foi formada a partir da indistinção entre cultura e natureza, entre política e biologia, algo que já faz pelo menos duzentos anos, desde Marx no mínimo, que é celebrado. Nos nossos tempos, podemos pensar que se trata de um visão que pode ser melhor entendida pelos leitores de Peter Sloterdijk, Paul Preciado e Stan Lee.

Não há razão para que eu cobre de Laerte a leitura de Sloterdijk. Mas eu poderia, talvez, perguntar se ele não leu Paul Preciado, que é um filósofo trans, ou se ele não leu Stan Lee, o grande criador dos personagens da Marvel.

Sloterdijk quebrou a divisão entre cultura e natureza com o conceito de antropotécnica. Ele elaborou uma antropologia fantástica (no sentido de fantasia) para mostrar que quando saímos da condição de monos de savanas para adentramos na condição de humanos, o fizemos não por um salto entre natureza e cultura, mas por técnicas de criação de humanos. Por exemplo, a técnica da progenitora que deixa de se progenitora para ser mãe, quando encontra tempo livre para cuidar dos filhotes mais fracos, aqueles que nasceram meio que despreparados, e que, depois, passaram esse defeito genético – o de serem mais jovens – para a espécie, gerando o fenômeno da neotenia. O homem é fruto da neotenia: a passagem de características individuais para a espécie, por exemplo, a característica de nascer despreparado (que deve ter ocorrido com algum bebê de certos monos das savanas) é hoje algo da espécie. Somos a única espécie que põe filhos no mundo e temos de cuidar deles de modo especial ao menos por dois anos!

Paul Preciado volta a nos mostrar como somos ciborgues, homens e mulheres que abusam de próteses (da bengala ao pênis artificial passando pelo stent no coração etc.), e que foram forjados pela genética em transformação, associados às químicas pós-nascimento para os jogos de excitação que simulam o que seria a “vida com prazer”. Somos uma espécie que existe por mutação genética, claro, e continuamos a favorece-la na medida em que nossa vida cultural existe pela química que ingerimos, às vezes não intencionalmente (poluição, agrotóxicos etc.) e às vezes intencionalmente (drogas lícitas e ilícitas de todo tipo, hormônios, dispositivos de reposição de neurotransmissores etc.)

Por fim, somos monstros forjados pela fusão de corpos de toda ordem, como Stan Lee cansou de nos mostrar à medida que criou seres exemplares desses fusões, geradas por todo tipo de possibilidades ficcionais: “radioativiade”, “raios gama”, experimentos de eugenia extraviada, armaduras fundidas ao corpo, simbioses entre agentes viróticos modificados e o corpo humano etc. A partir dessa visão de Stan Lee, e tendo por base essas propostas de narrativas criadas por Sloterdijk e Preciado, posso muito bem tomar o escritor da Marvel para fazer do Bolsovírus o único vírus realmente existente na causa da Covid-19.

Se assim faço, penso no conceito de biopolítica e no conceito de sindemia para alertar o Laerte de que a doença é, de cabo a rabo, política. A Covid foi gerada na polis e pela polis, e ela só se desenvolveu porque agentes políticos incorporaram a intenção do vírus. O Trumpvirus foi deposto e o Bolsovírus segue seu caminho. Entender isso é fundamental no sentido de saber que não há nenhum agente natural no corpo de alguém causador de dores, mal estar em geral, sufocamento etc., e que estaria então se pondo responsável pela infecção chamada Covid. Sabendo isso, fica mais fácil encontrar meios de deter o mal. Este mal que vivemos se tira pela mudança dos rumos políticos do país e pela reurbanização das cidades em moldes não capitalistas. A clínica, o hospital e a vacina não curam Covid. A arquitetura capitalista como está é seu campo especial de propagação. O que faz a Covid retroceder é a ação biopolítica variada que se consubstancia em ações de políticas públicas capazes de mudar a topologia urbana. A topologia de Wuhan não pode se universalizar e o Bolsovírus não pode ser presidente.

Bolsonaro se transformou no Bolsovírus e trabalha no sentido de deixar o vírus circular e, com isso, passar por mutações. De mutação em mutação, o vírus vai tapeando as vacinas. Os laboratórios, por sua vez, não querem resolver de todo o problema. É útil para eles irem resolvendo por etapas, gerando mais especulação na Bolsa,  e se enriquecendo com isso. Fazer passar a Covid de vez já não é algo desejável por eles. Nem mais pensável! Seria lhes tirar do rumo tão interessante que eles viram, em 2020, ser uma fonte de renda inaudita. Por que não manter as coisas no ritmo que temos, então, até … até surgir algo mais rentável?

Bolsovírus e capitalismo financeiro. O útil encontro da biopolítica atual.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo