O Capitalismo (draf)

1.

Capitalismo! Durante alguns anos evitei o uso dessa palavra. A filosofia social me levou a outras paragens. Passei a ver o termo “capitalismo” como algo marcado excessivamente pelo discurso sociológico e pelo jargão político. Essas abordagens me pareciam empobrecedoras. Além disso, cheguei a conjecturar que não soubéssemos sobre o que estávamos falando ao pronunciar “capitalismo”. Volto agora ao uso do termo. A partir do final de 2018, premido pelas necessidades da estar na linha de frente do “Canal do Filósofo” no Youtube, não pude evitar o vocabulário no qual a noção de capital se impõe.

Vivemos no capitalismo. Ninguém com algum juízo tem dúvida sobre isso. Se consideramos a narrativa de Marx sobre o capitalismo, concordamos então que a maneira como produzimos o que precisamos e reproduzimos a própria sociedade está umbilicalmente ligada a um desiderato inerente ao capital, que é sempre buscar sua própria acumulação crescente. Todavia, esse desiderato não tem sido feito de modo sempre igual. As dúvidas que pairam entre nós é como que adjetivamos o capitalismo. É sobre o qualificativo do capitalismo que as narrativas se multiplicam.

Para falar de nosso tempo, ou seja, os últimos cinquenta anos, há os que usam “capitalismo pós-industrial” ou “capitalismo pós-fordista”. Existem os que preferem “capitalismo cognitivo” ou até mesmo “capitalismo biocognitivo” ou simplesmente biocapitalismo. Existem os que adendam o modo de produção à ideologia que o justifica. Nesse caso, usa-se “capitalismo neoliberal”. A terminologia envolvida nessas denominações tem crescido na proporção do aumento de autores que tratam desse tema, ou seja, o de como é que é o capitalismo atual. Essas acepções me bastam. Elas parecem dizer tudo que preciso para descrever a base de produção e reprodução social dos tempos que vivemos.

Capitalismo pós-industrial não significa um capitalismo sem indústria, mas sim um capitalismo em que as fábricas emblematicamente chamadas de indústrias, responsáveis pela produção material, perderam a hegemonia diante das empresas e diante de outras formas de produção social, quanto ao comando da economia na produção e reprodução social. Atualmente a sociedade está trabalhando como um todo. Ela é a grande “fábrica”. Todos trabalham e envolvem nisso a vida como um todo, chamamos a isso de biocapitalismo.

Capitalismo pós-fordista é o mesmo que capitalismo pós-industrial ou pós-grande indústria. Diz respeito a um capitalismo que dispensou a maneira pela qual a típica fábrica do século XX se fez presente. A fábrica criada nos moldes do empresário americano Henry Ford (1863-1947) perdeu o protagonismo já no final do século XX e, agora, parece estar com seus dias mais que contados.

Quando queremos enfatizar o fato de termos hoje, tendencialmente, um capitalismo de serviços, envolvido antes de tudo com o trabalho imaterial e, de certo modo, como o produto imaterial, adotamos os termos capitalismo cognitivo ou capitalismo biocognitivo.

Capitalismo neoliberal diz respeito ao capitalismo pós-grande indústria ou capitalismo pós-fordista ou biocapitalismo ou capitalismo cognitivo. Mas, nesse caso, com o termo neoliberal, a ênfase é sobre a doutrina social vigente. Tal doutrina busca reger o estado em função dos objetivos desse novo capitalismo. Além disso, o neoliberalismo funciona como a ideologia que busca cimentar as relações entre uma nova subjetividade vigente e toda a maneira peculiar de acumulação do capital desses nossos tempos. 

Recordemos o que foi o capitalismo fordista. A partir dele poderemos, então, ver o nascimento da época pós-fordista e neoliberal. Ou, falando termos gerais, a época do biocapitalismo.

2.

A esteira rolante na chamada “linha de produção”, funcionando segundo os estudos de tempos e movimentos que possibilitaram acoplar os homens às máquinas, foi desenvolvida pelo engenheiro Friedrick Taylor (1856-1915). O método do taylorismo imortalizou-se como sendo o coração técnico do fordismo. Mas o fordismo não foi apenas um modo de organizar a fábrica. Para os que viveram o século XX ele se tornou quase que sinônimo de capitalismo. Além disso, se apresentou como contendo os fundamentos da boa sociedade moderna.

Essa sociedade veio a ser conhecida como a “sociedade do trabalho”, o local em que o trabalho fabril adquiriu prestígio e valor moral o suficiente para colocar de escanteio os que se arvoravam em dizer que viviam de “rendas”. O mundo do trabalho, o campo digno de respeito, então, veio a ser o de abrigo apenas dos que vendem a força de trabalho (operários) e dos que se dizem organizadores do trabalho e da produção. O fordismo manteve-se como o núcleo teórico-prático da “sociedade do trabalho”.

O fordismo foi o responsável pela produção em massa, pelo barateamento de mercadorias e, então, pela criação da chamada “sociedade de consumo” ou “sociedade de consumo de massa”. Essa sociedade propiciou uma mudança profunda nos costumes, cujos símbolos foram, ao menos no início, aqueles de paisagens específicas e bem conhecidas: o carro ao lado da casa e o liquidificador na cozinha. A calça produzida em série, o célebre jeans da “calça Lee” dominou o mundo tanto quanto a Coca Cola. O ícone cinematográfico do início dessa era, mas que valeu para toda ela, foi o personagem de Chaplin, o imortal Carlitos. Até hoje, em que pese o fato de atuarem de modo defasado, os professores de colégio explicam o capitalismo para os jovens passando para eles o filme Tempos modernos.

No capitalismo fordista o movimento operário cresceu. Pediu direitos. Depois de um tempo, exigiu direitos. Mesmo dominada corporalmente pelas engrenagens de uma fábrica que pouco requisitava do operariado em termos de conhecimento, pois os movimentos repetitivos eram maquinais e já previam a substituição do operário pela máquina, a classe operária sindicalizou-se e forçou o capital a ceder direitos ao mundo do trabalho.  Nessa época o estado se organizou de um modo menos liberal. O Welfare State tornou-se sinônimo do estado ideal. Um estado interventor, capaz de entrar em cena para mediar a disputa entre capital e trabalho, e incentivar o desenvolvimento se colocando na condição de grande empresário. Na Europa, isso se deu pela herança da social-democracia, nos Estados Unidos esse feito ocorreu por um progressismo peculiar que resultou no New Deal.[1] A saúde, a moradia, a escola pública passaram a contar como direitos do trabalhador enquanto direitos de cidadania. Ser cidadão, aliás, veio ser sinônimo de ser trabalhador e vice-versa. Em alguns lugares o operário tornou-se o cidadão par excellence. No capitalismo industrial fordista, em especial entre o fim da Segunda Guerra Mundial e os anos setenta, a jornada de trabalho diminuiu e os salários aumentaram. A desigualdade do capitalismo, que havia sido sua marca até 1929, cedeu significativamente durante esse tempo.

Durante esses anos, no Ocidente, a política da burguesia passou a ser a de “ceder os anéis para não perder os dedos”. Assim aconselhavam os líderes sindicais ao patronato. E em alguns casos não aconselhavam, mas ameaçavam. Aludiam ao fato de que, caso a via reformista não vingasse, os trabalhadores optariam pela revolução comunista, a via de Moscou, a política apoiada pela URSS no então chamado Terceiro Mundo.

Os sindicatos cresceram e geraram fundos de pensão bastante polpudos. Tanto quanto as empresas, nesses anos, eles investiram no mercado financeiro. O processo de financeirização se reiniciava de forma pujante. Mas, durante esses anos, a economia foi efetivamente dirigida pelo sucesso do mundo fabril. Foi o tempo dos “anos de ouro” da economia industrial de bens materiais. Tivemos então a época do autêntico valor do “American Way of Life”. Também foi a época da Guerra Fria, do nascimento dos Mad Men – os homens do marketing. O consumo ultrapassou as necessidades básicas e gerou uma sociedade do status, da competição e, diga-se de passagem, da produção da inveja. Preparou-se aí o que viria quando do canto do cisne dessa época: a “sociedade do espetáculo” em que a disputa entre “ser versus ter” perdeu espaço para a vigência do “aparecer”.[2] O mundo fetichizado das mercadorias se fez valer. O mundo do trabalho alienado se fez sentir. Tudo que Marx havia teorizado filosoficamente era visível, menos a teoria que previa a queda tendencial da taxa de lucro e os empecilhos para a acumulação do capital. Só agora, no capitalismo vigente, podemos perceber que aquela época não correspondia à regra do capitalismo, mas sim a um período de exceção! Só agora é que podemos, ainda que isso seja polêmico, voltar a falar sobre a lei tendencial de queda da taxa de lucro. Hoje em dia, de fato, o capital tem procurado desesperadamente novos lugares para favorecer a acumulação.

O capitalismo industrial e fordista conseguiu gerar uma enorme classe média nos Estados Unidos. Outros países industrializados viram nascer algo parecido, e os costumes americanos se difundiram por todo o Planeta. Países do Terceiro Mundo também tiveram algum crescimento de suas classes médias e criaram movimentos nacionalistas. O neocolonialismo cedeu espaço para o imperialismo. As independências políticas tardias ocorreram na África e na Ásia. Em cada país o deslanchar disso que, então, se rebatizava de “moderno”, passou a impactar as leis vigentes. Ao final dos anos cinquenta o mundo parecia estar bem arrumado, bipolarizado politicamente, mas de um modo relativamente harmônico. Nada parecia indicar que uma década depois tudo iria virar de cabeça para baixo. Mas virou.

Estudantes, operários, movimentos de mulheres, movimentos negros, grupos de libertação de todo tipo foram se aglutinando em um movimento de protesto mundial. O “Maio de 68” foi o cume desse vagalhão. O mundo deveria mudar de rumo. Era não só a época de pedir direitos! Tratava-se, fundamentalmente, da época de se ter o direito de inventar direitos.

Nos Estados Unidos reclamava-se, então, da Guerra do Vietnã. Os negros queriam que as leis segregacionistas acabassem de vez. As mulheres conheceram a pílula e a liberdade vinda de poderem pertencer ao mundo do trabalho. “Do lado de lá” da então chamada Cortina de Ferro, no mundo do Império Soviético que se arvorava em se dizer socialista, os jovens pediam liberdade política e, de certo modo, de costumes. A juventude “do lado de cá” queria o socialismo – ainda que, para muitos, não se tratava de imitar o que havia “do lado de lá”. A Primavera de Praga foi o equivalente “do lado de lá” ao Maio de 68 “do lado de cá”. Também eles lá viviam a “sociedade industrial”. Também eles haviam se educado por meio de uma jornada de trabalho menor, ainda que sem qualquer situação paradisíaca. Tiveram até o seu tipo de taylorismo. O estakanovismo criado pelo mineiro Andrei Stakhanov (1906-1977), condecorado com a medalha-título de “Herói do Trabalho Socialista”, era um arremedo do que se fazia na sociedade capitalista.

Maio de 68 foi a última grande pretensão de revolução mundial. Os filósofos e sociólogos já encheram de tinta muitos papeis sobre o movimento e a época. Às vezes falamos de tal época só lembrando da luta por novos costumes e pelo sonho de uma nova política. Não raro, nos esquecemos de mencionar que os anos setenta desencadearam a mudança do capitalismo quanto ao que se fazia no âmbito da produção. Quem sabe se Maio de 68 e todo o movimento da “contra-cultura” que se verificou nos anos sessenta não tenha sido parte das transformações que puseram fim à época do fordismo e da hegemonia da grande indústria?

Afinal, Maio de 68 foi um grito de liberdade diante de prisões que, do ponto de vista econômico de vários porta vozes do status quo, pareciam não ser prisões, mas o paraíso possível no capitalismo. Durante o fordismo todos os setores trabalhadores ganharam em saúde, educação e salários. Mas, ao mesmo tempo, o fordismo foi o império da linha de produção, da fábrica como clausura, e de todas as instituições que Foucault descreveu como “instituições disciplinares” sob o mesmo regime: o hospital, as prisões, a caserna, a escola – a fábrica resumia tudo isso ou expressava tudo isso. Os “anos de ouro do capitalismo”, que seduziram parte da classe operária, também foram os anos do feminismo reprimido, da falta da pílula anticoncepcional, da proibição rígida do aborto, da moral vitoriana ainda presente, da desconsideração para com a minoria negra e outras, e da imposição de noções de patriotismo e nacionalismo pouco justificáveis. Os jovens de classe média, ou mesmo os filhos de operários que conseguiam estudar, viam o trabalho fabril como a expressão da alienação. Herbert Marcuse e Willelm Reich foram heróis de Maio de 68 exatamente porque diziam que o gozo estava proibido, que a libido tinha uma história de cerceamento, e que tudo isso tinha a ver com o trabalho tanto no capitalismo quando no socialismo existente. Marcuse condenou ambos os regimes modelares da vida política de então, e por isso mesmo os chamou de um único e significativo nome: sociedade industrial.

Em Maio de 68 se pediu liberdade. Passou um anjo torto, ouviu, e realizou os desejos renovadores de então, deu a todos nós a liberdade do neoliberalismo.

Podemos voltar nossa atenção para alguns pontos da história econômica. Creio que isso deve ser útil aqui.

Terminada a II Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram a reconstruir a Europa e o Japão, e lançaram algum dinheiro também na América Latina e outras paragens. Fizeram o que tinham de fazer no sentido de promover a vitalidade do capitalismo, buscando tirar boa parte do mundo da influência das esquerdas internas de cada país e dos desejos expansionistas da URSS. Os Estados Unidos tinham o monopólio da produção do meio de pagamento do mundo capitalista, ou seja, o dólar, referenciado no ouro. Enquanto os países reconstruídos precisaram de dinheiro, os Estados Unidos não se fizeram de rogados. O dinheiro chegou na Europa e Japão. A indústria desses países se tornou competitiva e logo vieram a impor aos Estados Unidos um começo de déficit na balança de pagamentos. Os Estados Unidos precisavam, então, desvalorizar o dólar e tornar seus produtos mais competitivos para a exportação. No entanto, não podiam assim agir, pois o dólar era também a moeda mundial, a que todos confiavam, sendo ela a atrelada ao ouro. Mais que seu poderio bélico, era isso que fazia dos Estados Unidos uma potência hegemônica. Os americanos se viram em um impasse.

No governo de Richard Nixon o déficit comercial americano se acentuou. Sua dívida externa cresceu de modo significativo. Ninguém mais acreditava que havia em Fort Knox o ouro necessário para cobrir o dólar posto na praça. O governo americano estava de cabeça quente. A solução veio por meio de uma atitude um tanto estonteante.

Em um ato unilateral, o presidente Nixon simplesmente desfez a relação ouro-dólar, trazendo a moeda americana para uma situação exclusivamente fiduciária, ou seja, uma moeda baseada na confiança e tendo como lastro a riqueza do país. Isso desestruturou a vida econômica mundial. A taxa de câmbio, até então fixa, tornou-se flutuante. Os Estados Unidos passaram a olhar para suas necessidades internas, e fizeram o necessário para reduzir seu déficit. O governo americano desvalorizou o dólar e, com isso, reduziu sua dívida para com o resto do mundo.

Com o câmbio flutuante, as medidas de desregramento da vida econômica se expandiram pelo globo terrestre. Isso era tudo que a city londrina precisava para se parecer ainda mais com uma protofutura Wall Street. A desregulamentação fez o fluxo de capital poder viajar para todas as direções do planeta. As barreiras erguidas contra o capital através de regras nacionais foram caindo. As massas de dinheiro foram procurando os lugares mais capazes de proporcionar o acúmulo do capital. Foi nessa época que o Terceiro Mundo iniciou seu endividamento, que gerou as crises dos anos oitenta. O dinheiro barato nos bancos e de fácil trânsito foi o canto de sereia para os técnicos de governos do Terceiro Mundo, interessados no desenvolvimento ou mesmo só interessados em fazer pseudobenfeitorias que mantivessem oligarquias locais no poder.

Com o surgimento dos computadores em associação com a Internet, todos os negócios, uma vez sem barreiras nacionais, foram se fazendo em tempo real. O volume de dinheiro nas telas adquiriu aspectos astronômicos, jamais pensados quando as aplicações ainda se faziam segundo a relação ouro-dólar e com restrições de mercados setorizados. Hoje em dia os mercados funcionam 24 horas por dia no mundo todo. O fluxo do dinheiro de uma parte para outra em um número sem fim de negócios puramente financeiros é sem dúvida o que há de mais dinâmico na vida atual.

O capitalismo sempre implicou no regime de créditos. Trata-se da financeirização. Todavia, só de alguns anos para cá passou realmente a ser hegemônico mundialmente, com a ampliação de um número enorme de novos negócios, em especial os chamados derivativos. O que são os derivativos? 

Em contabilidade, grosseiramente falando, um ativo é um bem ou um valor que pode ser negociado. Uma safra de milho é um ativo. Um derivativo é um contrato que se origina do negócio com um ativo. Suponha que você é um produtor de milho e quer vender para os argentinos o seu produto. Você vende agora a sua produção que, enfim, ainda não está na sua mão. Você vai ter o milho para entregar daqui a seis meses. O problema todo é que daqui a seis meses nem você nem os argentinos sabem como estará a relação entre o real e o peso. Os argentinos podem, então, criar um contrato a respeito disso: um derivativo. Elaboram uma tratativa de fixar agora uma taxa de câmbio, de modo a se protegerem de um eventual aumento do real em relação ao peso, o que faria o milho ficar mais caro. Mas você pode ter também uma ideia semelhante. Você não sabe como será sua colheita. E se você não tiver o produto para entregar, você não terá feito um bom negócio. Então, você cria um derivativo que é uma espécie de seguro para sua safra ruim. Esses derivativos são feitos com outras empresas que não estão no negócio principal, e que especulam sobre o que vai acontecer sobre a safra e valor do real frente ao peso, e nisso arriscam ganhar ou perder.

Claro que essa operação não parou aí. A partir de 1970 esse tipo de operação gerou um sem número de outros tipos, envolvendo ativos de diversas características e derivativos de derivativos. Em grande parte, os derivativos passaram a servir também como elementos de mensuração de riqueza. Voltarei a esse assunto mais adiante.

O capitalismo regrado pelo mercado financeiro (ou melhor, desregrado!) tornou-se o capitalismo par excellence. Em outras palavras: é no âmbito da financeirização que a acumulação do capital se realiza de modo mais acentuado – o que é o escopo do capitalismo. O “ismo” é exatamente isto: o regime no qual o que importa é o capital, o seu crescimento, seu processo de acumulação cuja pretensão é seguir ao infinito.

Basicamente, ele é o regime de fornecimento de créditos para a indústria e negócios. Principalmente a partir do final dos anos setenta, deu origem a um processo endógeno de venda de papéis capazes de gerar lucro descolados do setor produtivo. Os ricos deixaram suas empresas nas mãos de executivos e passaram a ser acionistas delas mesmas e de outras. Além disso, trouxeram a classe média para este campo, com a ilusão de participação e de se tornarem “proprietários” de meios de produção.  A financeirização se realizou como um processo que conquistou o âmbito mental e prático de toda a sociedade. Bastou os setores médios da sociedade, incluindo aí trabalhadores assalariados, poupar um pouco, e eis que esses setores procuraram algum papel bancário para comprar e ver seu dinheiro valorizar ou ao menos não perder valor. Os trabalhadores, através de investimentos de seus fundos de pensão em papéis, também alimentam o crescimento do capital financeiro. Os cartões de crédito passaram a ser utilizados individualmente por todos, inclusive por trabalhadores de pequena renda. Isso sem contar o próprio Estado que, premido pelas necessidades de investimentos (para o bem estar social, no sentido de responder às reivindicações geradas no contexto da luta classista; guerras de todo tipo etc.), adquiriu dívidas públicas capazes de fornecer seus títulos, em geral os mais confiáveis. Os títulos de dívidas públicas foram autorizados a se transformarem em papeis negociáveis (titularização). Não foram poucos os que aprenderam a comprar títulos da dívida como uma prática segura de ver ampliados seus rendimentos.

A ideia básica do capitalismo sob o regime hegemônico do campo financeiro é que o crédito, inerente ao mundo produtivo, se desloca deste e passa a girar em roda própria com a única finalidade da acumulação do capital.

O que é o crédito? Forneço-lhe um dinheiro hoje para você pagar seus empregados e conseguir ampliar sua capacidade produtiva comprando máquinas, apostar em nova logística e preparar seu marketing, e você quita sua dívida para comigo quando vender a sua produção. Da minha parte, que sou seu credor, deixei de lado o dinheiro como elemento para a troca e transformei o dinheiro em mercadoria, cujo preço são os juros, que virão juntos no retorno do meu capital emprestado. Este mecanismo é inerente ao regime industrial capitalista. Sempre existiu. Durante todo o século XX, esse mecanismo foi ganhando vida própria.  Mas o modo como se desprendeu da própria produção de mercadorias e se tornou um campo próprio de ampliação do capital é algo do pós-anos setenta no mundo, e vigente para valer, no Brasil, a partir das últimas duas décadas. O capitalismo feito desse modo é o sonho realizado do capital. Por que um sonho realizado?

Tomemos o capital como Marx o denominou, ao menos em algumas passagens de seus escritos: “o sujeito autômato”.[3] A definição do sujeito moderno é dada pela autonomia, o capital, não sendo humano, mas se comportando como sujeito, é o grande mestre do automatismo. Qual o objetivo desse automatismo? Qual o sonho do capital?

Desde o início do capitalismo, o sonho do capital era romper com as amarras físicas do mercado. Era poder voar sozinho, num mundo próprio. O mundo virtual pelo qual o dinheiro agora anda, sem barreiras, é seu caminho ideal realizado. A equação vital para o capitalismo industrial era D-M-D’: dinheiro empregado para se produzir a mercadoria que poderia gerar mais dinheiro por conta do valor gerado na produção e realizado na comercialização. A equação vital para o capitalismo financeiro, diferentemente, é D-D’: dinheiro que gera dinheiro por conta de crédito, ou seja, dos financiamentos, onde se obtém juros.  Desfazer-se do vínculo com a mercadoria, livrar-se da matéria, foi o modo como o capital conseguiu se fazer como “capital fictício”, para usar uma expressão de Marx. É tendo esse tipo de capitalismo como hegemônico que, hoje em dia, vivemos. Temos mil e uma indústrias no mundo, fazendo mercadorias de todos os tipos, mas é no processo de compra e venda de papeis, ou seja, de ações de empresas, de compra e venda de dívidas e de seguros e de todo tipo de derivativos que o capital se reproduz de modo mais acentuado. Esse regime não surgiu à toa. Ele tem toda uma história. É a própria história do século XX.[4]

A bolsa de valores é um dos exemplos mais fáceis para se mostrar a vida do capital fictício e ao mesmo tempo as consequências deste na vida social.

O exemplo da empresa-faculdade ajuda no entendimento da trama sob a qual vivemos. Note-se uma faculdade que joga o preço de suas mensalidades para baixo, a fim de lotar salas de aula. Paga mal os professores e fornece um ensino de péssima qualidade. Dali saem alunos aquém das necessidades individuais e coletivas de uma determinada sociedade. Dali não sai nenhuma pesquisa. Mas, em termos de patrimônio comprado ou alugado a faculdade-empresa cresce, e o número espantoso de alunos a faz ter grande visibilidade social. Com a ajuda de algum marketing, eis que a mágica de fazer algo aparecer no sentido do que se deseja se realiza fácil! Ela pode então, junto com outras empresas não educacionais ou mesmo educacionais, colocar ações e títulos para a venda. Essas ações aparecerão no mercado de ações como tendo um valor crescente. “Vamos comprar ações daquele grupo lá, onde a faculdade X está presente, pois ela só cresce, nunca vai falir”. Desse modo, a faculdade como empresa educacional aparece no mercado financeiro como alguma coisa boa e promissora. E logo a sociedade passa a avaliar a tal faculdade pelo que ela mostra no mercado de ações, sua capacidade de gerar investimentos e fazer a economia se agitar, e não pela sua utilidade social enquanto aquilo que seria sua finalidade: o ensino e a pesquisa.

Uma série de outros tipos de papeis do mercado financeiro podem se agregar, então, a tal investimento. Tendo muitos alunos, a faculdade pode deslocar o pagamento das mensalidades para um banco que, abocanhando aquele volume depositado todo mês, de um lado concede crédito para a empresa depositante, de outro aumenta a capacidade de empréstimo para todos os seus clientes, e de quebra vende outros papeis que possam render juros, baseado direta ou indiretamente naquele volume de depósito. Se já não bastasse isso, a própria faculdade pode, prevendo uma crise, vender os seus ganhos antecipadamente para especuladores, que tentarão pagar o empresário ou acionistas da faculdade um valor menor e esperar para ver como se saem na crise real, se conseguem ou não receber dos inadimplentes. A depender da crise, podem ganhar. Esses papeis podem ser repassados a outro especulador, indefinidamente! Mil e uma situações se acumulam aí no âmbito dos negócios que fazem o capital crescer. Nenhum deles segue algum vínculo com o que se oferece de real, em termos de material humano, à sociedade. A qualidade da mercadoria real (alunos com conhecimento e patentes de pesquisas) em nada influencia a disposição da empresa no novo mercado, o mercado das finanças (os papéis gerados pela empresa no sistema de finanças). Eis aí, em termos maximamente resumidos e de modo didático, o capitalismo financeiro funcionando. Pode-se usar outro tipo de empresa, de sapatos ou comida etc. O esquema é o mesmo.

Esses mecanismos financeiros podem gerar crises impressionantes, especialmente no mundo atual, com globalização potencializada pela Internet, que faz a maior parte das pessoas do globo funcionar ao mesmo tempo. A célebre crise dos subprimes 2007/08 é o exemplo mais recente. De modo breve, tudo se passou da maneira como está abaixo.

No final dos anos noventa os bancos americanos passaram a facilitar o crédito para pessoas com poucos recursos. Não se pedia nada como garantia: nenhum grande patrimônio e nem mesmo renda. Até desempregados vieram a ter seus empréstimos aprovados. A única coisa pedida como garantia para o cliente era a sua casa. Era um tipo de crédito mais aberto, predisposto a “pegar todo mundo”. Nunca se emprestou tanto!  Esse tipo de crédito era conhecido como “subprime” (de segunda linha).

O volume de financiamentos desse tipo era gigantesco. Claro que os bancos sabiam bem que uma parte desse pessoal poderia vir a dar um calote. Mas o interesse bancário não era o de ajudar as pessoas pobres, evidentemente. Eles tinham outros planos. Eles fizeram pacotes de investimento para serem vendidos ao redor do mundo, e tais pacotes continham tais dívidas de alto risco, mas, também, dívidas de clientes com um histórico excelente, de gente que sempre honrou seus compromissos. Essa mistura era proposital, feita de má intenção para enganar mesmo o comprador do pacote. Os investidores (principalmente europeus) despejaram dinheiro nisso, comprando tais CDOs (Collateralized Debt Obligation). Os bancos engordaram. Quando os devedores pagassem os bancos, os investidores receberiam a dívida e ainda ganhariam juros bem altos. Esses juros realmente tornaram tais investimentos tentadores!

As agências internacionais de classificação de risco deram aval para tudo isso, afirmando que eram investimentos de boa qualidade. Uma operação assim sempre foi corriqueira, e todo investidor compra pacotes sem saber o que há de fato dentro, e então confia nas agências de classificação. Todavia, os devedores de histórico menos nobre, que davam base para a maioria do que estava no interior do pacote, não pagaram as suas dívidas. A maior parte dos bancos americanos e europeus, inclusive outros, estavam de posse de tais CDOs. E eis que veio, em efeito dominó, uma quebradeira de bancos, inclusive alguns gigantes. O mercado financeiro virou de ponta cabeça. Para evitar uma crise maior, como a pulverização dos bancos, os governos de vários países atingidos injetaram muito dinheiro em seus sistemas bancários. Deu-se a recessão no mundo todo, a falência de empresas e o desemprego campeou nos quatro cantos do globo terrestre.  Os Estados Unidos demoraram mais de dez anos para sair dessa crise. Outros países também entraram por crises prolongadas. O Brasil não deixou de sentir a crise.

3.

Os teóricos que avaliam que hoje vivemos sob um novo capitalismo, o chamado capitalismo cognitivo ou capitalismo biocognitivo, tomam todo esse movimento de preponderância das finanças como um fenômeno interior de uma mudança mais profunda. Eles entendem que o mundo em que estamos é fruto de alterações na forma de trabalho, na produção de serviços, na ampliação do trabalho imaterial, tudo o que foi gestado no próprio capitalismo industrial fordista. Pessoalmente, tendo a acrescentar a tais análises a ideia de que Maio de 68 foi o cume dessas transformações que, enfim, se reorganizaram em forma de pedidos de mudança comportamental e organizacional das instituições sociais e políticas.

Bem, supondo que podemos colocar na jogada a narrativa dos teóricos do capitalismo cognitivo ou biocognitivo, o que segue é uma tentativa de descrição de nossos dias atuais. O complemento dessa descrição, em termos de transformações de ideias e de criação de narrativas filosóficas a respeito das novas subjetividades possíveis, está no livro Narrativas contemporâneas.

Voltemos então à sociedade industrial.

Foi nela que que o capitalismo do século XX jogou a humanidade para um patamar diferente daquele do tempo de Marx. Mas foi Marx, justamente, que com incrível capacidade de visão de futuro, preconizou os melhores conceitos para entendermos esse tempo de transição do industrialismo fordista para nossa era. O conceito chave aí está nos Grundrisse, a borrador que ele escreveu para dali tirar o livro O capital. Trata-se do General Intelect ou saber difuso na sociedade em determinada época. Essa inteligência difusa tornou-se durante o século XX mais homogênea, ampliada e de qualidade incrivelmente superior ao que se tinha no início do capitalismo. Como isso se fez?

A universalização da escola pública em associação à diminuição da jornada de trabalho, bem como o cuidado da higiene das mães e crianças na maior parte dos países industrializados, certamente teve um papel central na formação do General Intelect.

O trabalho do regime fordista era, de fato, o trabalho alienado. Quanto menos se soubesse, melhor. Os operários queriam menos horas na jornada de trabalho, para escapar dele, ainda que tal trabalho pouco interessante fosse o sustento de todos. Os operários não precisaram pedir muito para se livrarem desse fardo. A indústria mesma se encarregou disso. Ela se maquinizou. Manteve a esteira, mas tirou Carlitos. Fez a máquina se acoplar à máquina. Depois, fez os computadores dirigirem cada máquina. Preparou o homem para, depois, fora da fábrica, se fundir com o computador. Nesse processo, houve a dispensa de milhares de trabalhadores. A indústria robotizou-se e deixou para a sociedade em geral todos os trabalhadores. Era o que tinha de fazer: passar da mais valia absoluta para a mais valia relativa e levar isso ao limite. A sociedade transformou-se autenticamente no local do trabalho. Criamos então a vida atual: a cidade ou a sociedade como fábrica social.

Essa fábrica é o mundo das empresas. Mas também o mundo do indivíduo-empresa. Com isso, em cada local os setores de serviços cresceram e o trabalho imaterial passou a predominar sobre o trabalho material. É na sociedade que há a acumulação do capital, segundo o mercado financeiro e segundo o mercado das empresas de serviços de todo tipo – ora mais ou menos intelectualizados. O invólucro das finanças dá o tom: no mercado vende-se dinheiro e não se entrega, só se entrega os juros. No mercado de serviços entrega-se só o uso dos softwares, o uso do produto de patentes, as plataformas virtuais. O mundo para os mortais comuns é o mundo do download, o mundo para os mortais que acham que são os produtores é o mundo do upload. Do entregador de pizza ao entregador de serviços médicos, vinga a uberizaçao. Mas também é uberizado o cientista. Na verdade, não há separação entre os que fazem upload e download. É como alguém já disse certa vez, não temos consumidores e produtores, mas “prossumidores”.

O trabalho imaterial predominante, só possível por conta do General Intelect, é trabalho e consumo ao mesmo tempo, pois feito coletivamente em rede. Forma-se nesse caso uma espécie de subjetividade maquínica, disseram filósofos franceses. Trata-se do homem em fusão com o que é maquinal. É trabalho autenticamente social. Ninguém faz algo sem estar conectado com outros virtualmente e integrando no que está fazendo ideias alheias e dados alheios, e isso segundo graus de exigência de mais ou menos intelectualidade. A síntese dessa situação é bem posta pelo economista italiano Carlo Vercellone: “A globalização financeira pode ser interpretada como o intento do capital de se tornar autônomo no seu ciclo de valoração em relação a um processo de trabalho que não mais subsume”.[5]

Outro italiano, o filósofo Toni Negri (em associação com Michael Hardt), vê esse movimento segundo uma frase bastante significativa: trata-se da união da automação da fábrica com a digitalização da sociedade.[6] Mas, tudo isso se fez porque a fábrica não era mais o lugar do lucro segundo a voracidade de crescimento do capital. Assim, “a fim de restabelecer margens de lucro que não podiam mais ser extraídas das fábricas, o capital teve de colocar o terreno social para trabalhar, e o modo de produção teve de ser ainda mais firmemente entrelaçado às formas de vida” – nesse caso, então, temos não só capitalismo cognitivo, mas capitalismo biocognitivo.

É subsumindo a própria vida que o capital, agora, cria processos de extração da mais valia. Trata-se de uma mais valia social, digamos assim. É uma mais valia gerada pelo trabalho contínuo que a própria vida social impõe, e gerada pela produção proposital de escassez que o capital insiste em querer fazer vigente: o dinheiro que não se empresta e o software ou a patente da vacina que não se cede de modo algum.

A mais valia relativa tirou o que pode tirar da fábrica ao maquinizá-la, mas o capital queria mais. Ora, ali na fábrica, sem o homem, o processo de valoração estava fadado a ficar estancado. Então, o capital foi para a sociedade. Além disso, não poderia deixar de ir, a fim de criar empregos e dar salários para os que foram despedidos das fábricas, englobando aí gerações. Caso contrário, quem compraria o que ainda se faz nas fábricas? O setor de crédito pessoal se desenvolveu muito nesse caso, criando as dívidas pessoais de todo tipo, a cada mês.

Os que fazem objeções a essa abordagem, por exemplo, dizendo que por mais que se produzam espetáculos, que são imateriais, dependemos de construir os palcos, que são materiais (e então todo o trabalho capitalista continua o mesmo), não entenderam que o problema não é a construção de coisas materiais. É claro que o mundo físico continua existindo! Ninguém perdeu seu corpo! Uma Olimpíada tem vários espetáculos mas, também, é claro, construções imensas para tal. Todavia, o material vem da fábrica mecanizada, e os pedreiros, construtores e arquitetos, em que pese a grandeza do setor de construção urbana, não deixam de serem prestadores de serviços e não operários fabris. Mesmo o pedreiro atual deve seu emprego ao General Intelect. Ele não mexe mais a massa. Ele é quem coloca certas paredes no prumo. As variações de intelectualização do trabalho imaterial devem ser levadas em conta. Esse homem é tido como “capital humano”, em uma acepção tipicamente empresarial e vigente nas teorias neoliberais de administração. Na nossa terminologia, trata-se do homem do trabalho precarizado em termos de direitos, mais ainda extenuado pelo ritmo psicológico e pelo tempo de trabalho. O preço que se pagou para escapar do trabalho alienado foi o de entrar em um tipo superior de alienação, mesmo sendo agora portador de um saber que faz parte do saber difuso.

Mas o capital não visa apenas crescer. Ele visa, para crescer, jamais deixar o trabalho se autonomizar a ponto de vê-lo de todo emancipado. Desse modo, ele tenta de toda maneira deixar o trabalhador cativo. O processo de uberização, de precarização do trabalho, faz a autonomia do trabalho, enquanto trabalho imaterial, não voar muito. As privatizações de serviços essenciais para que o trabalhador continue trabalhando dentro das necessidades que agora são a produção do homem pelo homem, são então uma peça-chave de todo esse novo tipo de capitalismo.

Privatização do ensino superior ou controle privado do ensino superior público, é algo que o capital não pode dispensar. Trabalhar como consumidor e produtor ao mesmo tempo, ser um médico que trabalha 24 horas em uma plataforma de tele medicina é possível de modo otimizado se a iniciativa privada remodela a escola de medicina para esse fim. Então, a privatização ou a introdução de um modus operandi privatista no público se faz necessário. Se isso piora o ensino e se isso é incompatível com a própria mercadoria imaterial produzida, como Marx insinuou às vezes, é uma discussão dos políticos que querem acreditar que aí está a contradição que pode favorecer a luta anticapitalista atual.

Mas esse caminho da privatização não se faz só pelo controle, também é o caminho da busca do lucro. Explico.

Marx viu que a sua teoria do valor-trabalho tinha validade para o capitalismo industrial, mas que ela tenderia a não ser mais aplicável em outro tipo de capitalismo. Ela tenderia a ficar obsoleta por conta da evolução do capitalismo. As horas de trabalho cada vez mais tenderiam a encolher, e isso justamente em função de uma maior produção. O valor tenderia a zero em uma sociedade com a sua produção de bens materiais nas mãos de robôs, uma vez que o trabalho humano praticamente desapareceria da fábrica. Desse modo, a própria mensuração do valor, que viria das “horas do trabalho socialmente necessário”, como Marx definiu para além da teoria de David Ricardo, cairia por terra. [7]

Assim, Marx não disse que o trabalho deixaria de ser a fonte do valor, mas insistiu que este não poderia mais ser mensurado pelo tempo. Todo o trabalho no capitalismo cognitivo ou no biocapitalismo ou capitalismo biocognitivo é crescentemente imaterial, feito a partir do intelecto, e que se estabelece fora da fábrica, socializado por toda a sociedade. Então, como não poderia deixar de ser, o capital se desloca para a sociedade e ali tende a capturar a mais valia social, a fim de manter seu desiderato de acumulação infinita. A produção no capitalismo atual tende a ser uma produção em rede e cada vez mais social, mas o capital, por meio da propriedade privada, segura o conhecimento (patentes de softwares de todo tipo, bancos de dados, fórmulas medicinais etc.) para si de modo a gerar escassez. Retira o lucro exatamente da escassez: põe formas rentistas de atuação para gerar lucro. Mas, sendo este capitalismo um campo de crescente exploração das faculdades humanas, a própria vida inteira dos homens, o que justifica o nome de biocapitalismo, os setores de trabalho em expansão se tornam tudo aquilo que é a produção do homem pelo homem. Educação, saúde, cuidado com crianças e velhos – eis aí os setores em expansão nesse nosso capitalismo. Se é assim, então o capital avança nesses setores, mantidos gratuitos pelo Welfare State, buscando a privatização deles.

Provocação de escassez dos bens imateriais criados pela sociedade como um todo, e privatização dos lugares e instituições que se incumbem da produção do homem pelo homem, são as duas grandes tarefas que o capital impõe a si mesmo nessa fase atual do capitalismo.

4.

Um jornal do estado do Paraná colocou como manchete: “De como o capitalismo produziu uma vacina contra a covid em tempo record”. Com tal manchete, o jornal queria propagandear os benefícios milagrosos da “iniciativa privada” e a importância do reinado do capitalismo.  O jornal não disse, no entanto, que a doença foi produzida pelo capitalismo! Nenhum vírus teria causado qualquer mal se a cidades, em especial a cidade chinesa de origem da doença, não fossem cidades organizadas segundo o capitalismo. Quando o lucro é a meta, o homem fica de lado. Sua saúde não interessa, a não ser que fique doente e isso leve ao capital enxergar ali uma maior chance de acumulação.

Biocapitalismo – eis o nome da coisa nessas circunstâncias.

Por isso mesmo os médicos, mesmo não conhecendo os conceitos de biopoder e biopolítica, acabaram por construir o conceito de sindemia.[8] A covid é uma moléstia urbana que é produzida pelas condições de higiene da vida social e política de nosso tempo, e também a disposição contra ela depende da reorganização das condições de vida, em especial condições arquitetônicas e correlatas. A covid é então complexa. Não pode ser reduzida a uma questão estritamente médica, clínica. Naturalizar a doença só pode nos levar a produzir mais doenças inéditas e gerar mais casos de desorientação coletiva, como a que vivemos em 2020.

Mas a questão do capitalismo gerando a doença, pelo qual podemos chamar essa fase do capitalismo de biocapitalismo, não se resume a essa identificação. A sindemia de 2020 é também, antes de tudo, um elemento chave para entendermos como opera o capitalismo atual. Biocapitalismo é um capitalismo que extrai mais valia da vida. Essa é sua definição. Mas é também e principalmente um capitalismo que aglutina o capitalismo financeiro e o capitalismo cognitivo, e sem esse acoplamento não poderia extrair a mais valia social, que é a maia valia gerada nessa fase. Explico.

No capitalismo industrial o valor é mensurado pelo “tempo de trabalho socialmente necessário”, na fórmula inventada e consagrada por Marx. Os operários trabalham e o tempo em que trabalham serve de medida para o valor e para a mais valia, o valor que corresponde ao trabalho não pago, e que é a origem do lucro. No capitalismo em que vivemos a lei do valor-trabalho entra em crise. O trabalho imaterial, ou seja, nossa ação cognitiva e de afetos, feito em rede e, portanto, social em um sentido bem caracterizado, não é mensurável pelo tempo. Não é feito na fábrica, mas na sociedade, e parte dele é dependente do saber difuso comum, o que Marx chamou de General Intelect. E isso tanto do ponto de vista de seu conteúdo como da sua organização. A lei do valor-trabalho sai do campo, e entra então uma outra relação com o tempo. A extração da mais valia ganha outra maneira de agir. A sindemia da covid deixou isso claro. Trabalhamos para conte-la, especialmente em busca da vacina, coletivamente, isto é, socialmente, e o resultado, ou seja, a vacina, não deverá ser entregue para ninguém. Como uma plataforma virtual ou como um empréstimo, ela terá usuários, mas sem abrir mão de algo que podemos tomar como evidentes: o fato de ter se tornado propriedade privada.

Quando a doença começou, antes mesmo que qualquer empresa de pesquisa médica, os grandes laboratórios, começassem a pensar em vacina, os pesquisadores do mundo todo se voltaram para o assunto e começaram a trabalhar coletivamente, em rede, em uma subjetividade que fundiu homens e computadores e internet, acoplando e cruzando informações. Logo o saber difuso da sociedade, ou o General Intelect, que no limite é produzido pelo patamar de escolarização e o patamar de cultura que evoluiu rápido durante o capitalismo industrial, serviu como o propulsor dessa grande conversação científica. Só mais tarde, já sobre os ganhos da socialização desse saber difuso, é que os grandes laboratórios vieram a agir. Redirecionaram seus pesquisadores para a covid (sem qualquer gasto a mais dos seus orçamentos) e logo se aproveitaram do saber elaborado em comum pelos pesquisadores independentes para realmente criar pesquisas direcionadas, que de modo algum partiram do zero. Daí a mais valia social foi explorada em sua fase inicial.

Mas, em seguida veio a exploração maior ainda, que se deu através do carreamento da mais valia social para o campo do capitalismo financeiro. A partir de um determinado momento os grandes laboratórios começaram a competir pela produção da vacina, organizando a forma de coleta de resultados. Passaram a propagar pela mídia sucessos semanais, gerando intensa movimentação na bolsa de valores.  A vacina já não importava mais, mas sim os resultados postos em previsão, para que se pudesse dar continuidade à especulação. Que a vacina tenha surgido, foi alguma coisa que poderia não ter acontecido. Afinal, no que pese o dinheiro carreado para achar a cura da AIDs, temos aí meio século sem sucesso.

Assim, o lucro gerado veio das seguintes fontes: 1) pela apropriação do comum, sendo que foi este comum que gerou a vacina, sendo que esta, então, ficou cativa de patentes; 2) e também pela maneira de divulgar os resultados, o que colocou os laboratórios em dura competição. No entanto, tal competição não se efetivou pela produção das vacinas, mas pelo apresentado em possíveis lucros futuros para os acionistas, o que completou o lucro estupendo gerado em 2020 para acionistas de laboratórios e também para todo tipo de forma de seguro (derivativos) gerado nesse mercado. Ao terminar o ano, significativamente junto com empresas como o Facebook e o Google, surgiram os laboratórios médicos como os que lucraram de fato com a covid enquanto criação do capitalismo. O capitalismo não deixou de dar sequência aos malefícios de Wuhan e muito menos deixou de ganhar com ele – e muito – no contexto dos milhares de mortos produzidos. Empobrecemos, mas o capitalismo este ano tornou os ricos mais ricos.

O biocapitalismo é inextricavelmente ligado ao capitalismo financeiro. Ele é capitalismo cognitivo como biocapitalismo na medida em que usa exatamente não de uma força de trabalho destituída de saber, mas de uma força de trabalho que valoriza o capital exatamente porque detém o saber. Não medimos mais nossa força de trabalho e nossas mercadorias pela teoria do valor-trabalho, mas o trabalho continua sendo a fonte de riqueza, embora o dinheiro, separada da riqueza, possa gerar uma movimentação financeira que, enfim, se torna ela própria uma nova mensuração da valorização. É uma medida não quantitativa. Mas a medida dada pela fórmula anterior, o tempo de trabalho socialmente necessário, nunca foi de fato uma medida quantitativa.

Os adeptos de uma visão de futuro para além do capitalismo acreditam que o saber é não possível de ser totalmente dominado pelo modo de produção do capitalismo cognitivo, pelo biocapitalismo, e que é nisso que a crise vai se acirrar, e dar meios para que possamos pensar noutro tipo de organização social de produção da vida e reprodução da sociedade. É uma visão otimista. Mas não tola. Todavia, para os que não querem qualquer visão otimista, ainda assim penso que ganharão se entenderem a narrativa aqui fornecida. Penso que deverão entender que a sindemia pode melhor vista pela narrativa do biocapitalismo, ela explica bem como tudo que ocorreu em 2020 foi uma benção para a acumulação do capital.

5.

Falamos do capitalismo industrial e fordista, do capitalismo pós-grande indústria e pós-fordista, do capitalismo cognitivo e/ou biocapitalismo. Resta agora, para concluir, tecer algumas considerações sobre o neoliberalismo.

Podemos introduzir o tema do neoliberalismo voltando alguns parágrafos, tomando os episódios aqui relatados sobre os anos setenta. De um ponto de vista estritamente econômico, tudo que foi dito em relação aos anos setenta pode ser resumido por meio da expressão “crise de acumulação”.

Os “anos de ouro” haviam trazido ganhos para os setores populares em todo o mundo – tanto do ponto de vista econômico quanto do social e político. David Harvey lembra que Nos Estados Unidos a parcela da renda nacional nas mãos dos 1% mais ricos havia mudado de uma taxa de 16%, vigente antes da Segunda Guerra Mundial, para menos de 8% quando dos anos sessenta.[9] Os ricos pareciam não se importar tanto, uma vez dentro do quadro de crescimento econômico. Mas quando o crescimento econômico começou a estancar, em meados dos anos setenta, tudo ficou diferente. As classes altas se inquietaram. A solução que propuseram ao mundo passava por ideias que até então eram subalternas, mas que, incentivadas intencionalmente, tanto na mídia quanto nas universidades e entidades patronais proliferantes, compuseram o receituário neoliberal.

Penso que David Harvey foi feliz ao qualificar esse receituário, quanto ao plano teórico, identificando-o segundo uma dupla via: tratava-se de uma utopia e também de um projeto político. A utopia era a de reorganizar o capitalismo internacional, o projeto político era o restabelecer as condições da acumulação do capital global. A utopia ficou de lado e o projeto político, com incoerências de vários tipos, foi o que seguiu adiante.[10]

A teoria necessária para colocar o neoliberalismo como algo viável havia sido transformada em ideário através de um manifesto inicialmente bem restrito, elaborado em 1947, na Sociedade Mont Pelerin. O nome veio de um spa suíço que serviu de local de reunião de intelectuais avessos a qualquer intervenção do estado no processo de condução do capitalismo. O manifesto falava de liberdades individuais ameaçadas pelo keynesianismo e pelo socialismo, e reiterava que tais liberdades individuais dependiam de sólida proteção legal à propriedade privava e de um incentivo decisivo para o que o mercado e somente o mercado pudesse regrar a vida das nações e do mundo. O dogma era claro: sem a competição da chamada iniciativa privada nenhum anseio de liberdade poderia ser de fato alcançados. Ora, quando veio a crise de 1970, essas ideias foram recuperadas e rapidamente incentivadas. Vários centros de difusão as acolheram. A universidade de Chicago, com Milton Friedman à frente, ficou bem conhecida como uma hospedeira de intelectuais neoliberais. As classes ricas no mundo todo ficaram gratas aos bancos suíços quando estes deram um Nobel em Economia para Hayek em 1974 e para Friedman em 1976. Pronto! O neoliberalismo podia então falar grosso! Já no governo Carter a teoria neoliberal vingou. Mas as coisas todas foram de fato alteradas em seu favor com Reagan nos Estados Unidos e Margareth Thatcher na Grã Bretanha.

O neoliberalismo não deu poder e dinheiro para quem tinha. Sua implementação gerou novos setores endinheirados. Refez a noção de classe alta no mundo todo. Elas nunca foram autenticamente nacionais, mas o neoliberalismo as tornou ainda mais transnacionais e muito mais ricas que as classes altas até então conhecidas. É significativo esse dado que foi veiculado na imprensa nos anos noventa: os ativos dos três maiores bilionários alcançaram nessa época um valor superior ao PIB de todos os países menos desenvolvidos e sua população de 600 milhões de pessoas.

O trabalho do neoliberalismo foi o de instruir os governos a endurecerem contra o movimento sindical, em especial em uma época de facilidade de despedir pessoas. Na sequência a doutrina orientou uma enorme onda de privatização de tudo aquilo que havia sido publicizado nos trinta anos anteriores, tudo aquilo que havia sido gerado por enorme esforço coletivo. Assim se fez no mundo todo por vias diferentes. Nos Estados Unidos e na Grã Bretanha a via para o reinado do neoliberalismo se fez por eleições montadas no dinheiro e no convencimento. No Chile a escolha se deu por golpe militar. Em muitos outros lugares do Terceiro Mundo, a forma de adoção se fez pela pressão sobre o pagamento de dívidas. Uns mais cedo, outros mais tarde, os países foram cedendo à financeirização do capitalismo em associação a um estado que se dizia “estado mínimo”, mas que na verdade era um novo estado interventor: sua intervenção se deu no sentido da desregulação e na garantia de que tudo deveria ser controlado, sim, mas pelo mercado.

Por toda a época neoliberal veiculou-se a ideia que fez a cabeça de Ronald Reagan: se você deixa os ricos com menos impostos então a atividade econômica proporcionada por eles é de tal ordem prolífera que rapidamente todo o imposto arrecadado de toda a sociedade tende a aumentar. Em nenhum lugar do mundo isso ocorreu sem que se provocasse um empobrecimento geral. E em muitos lugares a atividade econômica frenética esperada nem veio, só mesmo a pobreza vingou. No Brasil, nesse momento em que escrevo, o ministro da Economia Paulo Guedes acredita ainda nessa tese, mesmo na situação pós-Covid. Ele acha Reagan atualíssimo. E isso mesmo após todas as crises de bolhas financeiras provocadas por um capitalismo guiado pelo neoliberalismo. O ideário do neoliberalismo continua vigente em nosso país, e os ricos estão dispostos a sustentar qualquer coisa tosca no governo, desde que possam sonhar com as reformas propostas por Guedes.

[1] O New Deal foi um conjunto de medidas econômicas e sociais adotadas pelo governo do democrata Franklin Delano Roosevelt (1933-1945), no sentido de tirar os Estados Unidos da crise de 1929. A Crise de 1929 havia colocado em xeque o liberalismo. A resposta à crise foi sair do liberalismo exclusivamente baseado no mercado para a entrada em um regime de maior participação estatal na economia. Dentre as medidas adotadas pela política do New Deal pode-se destacar: 1) desvalorização do dólar para tornar as exportações mais competitividade; 2) ajuda aos bancos para evitar falências no sistema financeiro; 3) criação do sistema de seguridade social, com destaque para o seguro desemprego e a Lei de Seguridade de 1935; 4) direito de organização sindical; 5) amplo incentivo à agricultura; 6) construção de obras públicas, com destaque às grandes rodovias e hidrelétricas. Com isso houve a contratação de trabalhadores e tornou-se legítima a ideia de que o correto era uma sociedade sem desemprego. Isso deveria levar o país a um aquecimento da economia em todos os níveis. Os sindicatos, então livres, fariam intermediação entre capital e trabalho e esperava-se com isso que as greves não levassem a confrontos violentos.  

[2] Sobre a inveja e sobre o espetáculo, as referências são os trabalhos de Lipovetsky e Debord, segundo a acepção formulado em: Ghiraldelli, P. Narrativas contemporâneas. São Paulo: CEFA Editorial, 2020.

[3] O caráter de automatismo do capital é teorizado, em especial, pelos marxistas ligados aos escritos de Kurz, em especial Jappe, no livro …

[4] Sobre a financeirização do capitalismo segundo a ótica marxista, há dois livros que já se tornaram clássicos:

[5] Capitalismo cognitivo. Buenos Aires: Prometeo, 2011, p. 65

[6] Assembly. São Paulo: Politeia, 2018, p. 152.

[7] É claro que essa forma de ler Marx é polêmica, mas ela encontra respaldo nos Grundrisse, na célebre passagem sobre as Máquinas, e assim é interpretada por pensadores italianos, em especial Toni Negri. Para uma referência pode-se ver:

[8] referência

[9]

[10]